Título: EUA tentam isolar Brasil e Índia na OMC
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/06/2007, Economia, p. B4
Os Estados Unidos começaram a adotar manobras políticas para tentar isolar Brasil e Índia na Organização Mundial do Comercio (OMC) e alertam: um sentimento contra os dois países poderá ressurgir no Congresso americano, dificultando a aprovação de qualquer lei ou mudança de tarifas que possa beneficiar Brasília e Nova Délhi. O secretario americano de Agricultura, Mike Johanns, disse ainda ao Estado que uma queda nas tarifas de importação do etanol poderiam apenas ser debatidas em 2009.
A conferência de Potsdam, na Alemanha, com Brasil, Índia, Estados Unidos e União Européia (UE), os integrantes do G-4, foi convocada para tentar superar as diferenças entre os governos nos setores de agricultura e produtos industriais. Mas o processo fracassou diante da falta de um consenso sobre até que ponto os países emergentes deveriam abrir seu mercado em troca de uma liberalização no setor agrícola.
Tanto americanos quanto europeus criticaram a posição de Brasil e Índia, que rejeitaram qualquer abertura de seus mercados para a indústria. Os países ricos queriam uma queda de 58% nas tarifas, mas o Itamaraty insiste em um corte máximo de 50% diante da proposta modesta em agricultura.
Agora, a Casa Branca parte em busca de novas aliança. Ontem, a representante de Comercio dos EUA, Susan Schwab, convocou em sua missão em Genebra países latino-americanos como Chile e Costa Rica, e também asiáticos e de outras partes do mundo, para pedir engajamento na luta pela abertura de mercados para produtos industriais.
Schwab disse que quer impedir a tendência que estava vendo de uma tentativa de divisão da OMC entre países dos Hemisférios Norte e Sul. Para evitar isso, Washington tenta reunir não apenas países ricos, como Austrália e Nova Zelândia, mas também economias emergentes. Os americanos não descartam nem sequer uma maior participação da China.
Nos próximos dias, outro grupo de países emergentes, incluindo Colômbia, Peru, México, Tailândia e Cingapura, vai apresentar uma proposta que fica no meio termo entre todas as idéias apresentadas até agora na OMC.
Além da tentativa de criação de novas alianças, Schwab não descarta que Brasil e Índia possam gerar reações negativas de congressistas americanos. Isso já havia ocorrido no ano passado, após outro desentendimento no G-4. Na época, vários senadores americanos iniciaram campanhas para retirar benefícios comerciais de Brasil e Índia como forma de retaliação pelo comportamento dos dois países nas reuniões da OMC. ¿Isso poderá voltar a ocorrer¿, admitiu Schwab.
O secretário americano de Agricultura, ainda alerta que o Brasil dificilmente conseguirá rever as sobretaxas impostas sobre o etanol nos EUA, uma das demandas do País na relação com o governo americano. ¿A lei será revista somente em 2009¿, disse Johanns.
Seja qual for o futuro das negociações, a realidade é que a confiança entre os ministros foi afetada. O chanceler Celso Amorim admite que não tem intenção de se encontrar com americanos ou europeus tão logo para tratar da Rodada Doha. Para ele, uma das únicas certezas no processo na OMC é de que ¿o G-4 esta morto¿.