Título: Chávez troca o 'velho Mercosul' por Irã e Rússia
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 24/06/2007, Economia, p. B8
Mesmo a 12,6 mil quilômetros de distância de Assunção, no Paraguai, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, será uma figura marcante na 33ª Reunião de Cúpula do Mercosul, nos dias 28 e 29. Embora nenhum dos quatro países originais do bloco mencione, os problemas trazidos pela adesão plena da Venezuela tornaram-se uma discussão inevitável nesse encontro semestral.
As pressões internas aumentaram depois de o próprio Chávez ter expressado sua pretensão de adequar o Mercosul a seus objetivos estratégicos. 'O velho Mercosul não me interessa', afirmou na semana passada. 'Se não há vontade de mudança, não estamos interessados no Mercosul.' E disse que seu país 'não está desesperado' para completar o processo de adesão ao bloco.
Chávez trocou sua participação na cúpula por uma jornada pela Rússia, Bielo-Rússia e Irã. Nos dias 28 e 29, em Moscou, deverá negociar a aquisição de submarinos e armamentos para as forças armadas venezuelanas. Por trás de sua ausência está um cálculo político evidente: se demonstra pouco interesse no Mercosul, também evita reações agudas contra decisões como a cassação da licença da Rádio Caracas Televisão (RCTV) e os ataques ao Senado brasileiro, no desdobramento desse episódio. Chávez optou por buscar a distensão da crise que provocou no Mercosul e desfazer o incômodo que sua atuação gerou na diplomacia dos parceiros.
COMPLICADOR
Negociado a toque de caixa, o protocolo de adesão da Venezuela ao bloco foi assinado em julho de 2006 e deixou o Mercosul em uma encruzilhada. Os sócios, especialmente o Brasil, não têm como voltar atrás. A avaliação de que o país sobreviverá a Chávez e de que interesses econômicos e energéticos devem prevalecer às análises políticas do momento se tornou uma agravante.
'A Venezuela de Chávez virou um parceiro inadequado para o Mercosul. Chávez não se mostra leal ao projeto de integração e afeta a sua credibilidade', disse o ex-chanceler Celso Lafer. 'A presença da Venezuela é um complicador enorme para o Mercosul. Para ser um parceiro estratégico do Brasil, a Venezuela não precisava ser incluída no Mercosul', completa o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia. 'Esse caminho tem claro ranço ideológico.'
A rigor, a reversão desse cenário poderia vir dos Congressos brasileiro ou paraguaio, que não concluíram a tramitação do protocolo de adesão. Somente após a aprovação desse documento pelos parlamentos dos sócios originais e da Venezuela, o país participará com plenos direitos e deveres.
A reação de Chávez a um apelo do Senado brasileiro para que reconsiderasse o caso da RCTV piorou a situação. O venezuelano enviou 'condolências ao povo do Brasil' pelo fato de seu Legislativo 'repetir como um papagaio o que dizem em Washington'. Desde então, o Congresso guarda o protocolo na geladeira.
'O maior prejuízo para o Mercosul é ter entre seus sócios um país que traz riscos à democracia no continente', afirmou o senador Heráclito Fortes (DEM-PI), presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado. 'A adesão da Venezuela foi negociada de forma açodada e deve ser revista. Mas não acredito que o Congresso chegue a vetar seu ingresso no Mercosul, porque Chávez, um dia, vai passar.'