Título: A operação militar no Rio
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/06/2007, Notas e Informações, p. A3

Sob múltiplos aspectos a megaoperação policial que vem sendo desenvolvida há quase dois meses no conjunto de favelas do Rio de Janeiro, denominado Complexo do Alemão, é um trágico desastre. Não bastasse o saldo de 36 mortos e 72 feridos que já havia desde o começo do cerco policial (iniciado em 2 de maio) para combate aos traficantes, só na quarta-feira foram mortas mais 19 pessoas (pelo menos), outras 9 ficaram feridas por balas perdidas, e nem assim há indícios de quebra da resistência da organização criminosa que domina aquele espaço público.

Só poderia, mesmo, tratar-se de grande temeridade, de conseqüências imprevisíveis em termos de sacrifício de vidas humanas, a colocação de 1.200 policiais civis e militares e mais 150 agentes da Força Nacional de Segurança (FNS) numa luta aberta, com criminosos fortemente armados, em espaço densamente povoado, em plena movimentação de seus habitantes entre suas residências, escolas, estabelecimentos comerciais e vias públicas, sem condição alguma de abrigar-se da saraivada de balas dos beligerantes - policiais e bandidos - vindas de todas as direções. E os telejornais exibiram o comovente desespero das mães que tentavam, de todas as formas, proteger seus filhos dentro daquele violento campo de batalha.

Considere-se no mínimo questionável a informação, das autoridades responsáveis pela operação, segundo a qual ¿somente¿ criminosos morreram no tiroteio de 7 horas ocorrido no Complexo do Alemão. Por acaso os abatidos traziam crachás com suas respectivas sentenças condenatórias? E quem garante que as balas ¿perdidas¿ produzem apenas feridos? É verdade que não foram pouca coisa os 40 quilos de cocaína, os 115 quilos de maconha, os 50 explosivos, 5 fuzis, 5 pistolas e 2 metralhadoras antiaéreas (capazes de derrubar helicópteros) apreendidos durante a operação. Também é verdade que houve um prévio levantamento, do serviço de inteligência da Secretaria de Segurança do Rio, indicando os locais de concentração de armamento e munição dos traficantes. E, como disse o secretário José Mariano Beltrame, foram alvos da operação as localidades Areal, Chuveirinho e Matinha, ¿locais onde o Estado há muito tempo não ia¿.

É justamente a correta observação do secretário de Segurança do Rio, em termos de ausência do Estado nas favelas cariocas, que nos leva a considerar estreita e limitada a maneira como está sendo conduzida a política de Segurança na que já foi a Cidade Maravilhosa. Deixem-se de lado as deficiências de uma ¿operação militar¿ sem ocupação contínua dos ¿territórios¿ conquistados do inimigo, ou seja, uma guerra que parece com horário de expediente - acaba certa hora do dia para retornar no outro, coisa não freqüente em batalhas de qualquer espécie. Se o Estado está ausente, como diz o secretário, não será apenas a presença policialesca que preencherá essa lacuna. O Estado está ausente das favelas no campo da segurança da mesma forma como o está no campo da saúde, do saneamento, da educação, da cultura, dos esportes, do lazer e, numa palavra, dos serviços que possam inculcar esperança e sentido positivo à vida, sobretudo dos jovens. É claro que os agentes do narcotráfico buscam fazer as vezes do Estado em alguns desses campos - e assim conseguem a adesão (ainda que por medo) das comunidades que dominam.

Programas sociais desenvolvidos pelo poder público, em parceria com organizações não-governamentais, têm diminuído substancialmente os índices de criminalidade onde antes eram recordistas. Não seria o caso, então, de nas favelas do Rio o Estado desenvolver um tipo de ¿ocupação¿ não apenas policial? Onde estão os programas sociais, culturais e esportivos desenvolvidos no Complexo do Alemão - que não dependam do narcotráfico?

Não há a menor dúvida de que as armas pesadas do crime organizado precisam ser apreendidas pelas forças policiais, onde estiverem. Mas também não há qualquer dúvida de que a favela não pode ser transformada numa terra de ninguém onde a vida dos habitantes honestos e trabalhadores não merece mais respeito do que a vida dos bandidos caçados pela polícia.