Título: Roriz diz que é vítima de 'massacre da imprensa'
Autor: Nogueira, Rui
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/06/2007, Nacional, p. A8
Tropeçando nas palavras e esforçando-se para transformar um discurso de explicações da tribuna do Senado em um comício de campanha, o senador Joaquim Roriz (PMDB-DF) reapareceu ontem na Casa para dizer que está sendo vítima de um ¿massacre da imprensa impiedosa¿. Ele usou a maior parte do discurso para reapresentar sua biografia política, reforçar que governou o Distrito Federal quatro vezes, e, resvalando para a hagiografia, lembrar ao plenário que é um ¿homem temente a Deus, que vai à missa todos os domingos e comunga¿.
O senador abriu o discurso anunciando que não permitiria apartes dos colegas. Ao final, deixou a tribuna anunciando: ¿Vou prostrar-me de joelhos na Catedral.¿
Na parte final do discurso, emocionado, Roriz abandonou o texto escrito e, soltando a voz e gesticulando muito, reviveu os comícios que marcaram suas campanhas ao governo do Distrito Federal. Falou das cestas básicas, dos lotes e de tudo que, na opinião dele, fez ¿pelo povo humilde¿.
Em vez de dar explicações cabais sobre a facilidade com que pegou um empréstimo de R$ 300 mil em um cheque de R$ 2,2 milhões, o senador fez duas afirmações categóricas: 1) que se tratou de um empréstimo tomado com um amigo e ¿nada mais que isso¿; 2) que o Brasil precisa de leis mais severas, mas ¿para coibir vazamentos de investigações que visam a enlamear nomes honrados¿.
`DE JOELHOS¿
Roriz fez uma confissão: de que, diante de ¿tanta injustiça¿, ¿dor profunda¿ e ¿inverdades¿, chegou a pensar em renunciar ao mandato. Contou que resistiu e se recuperou com muitas orações, ¿prostrado¿, ¿de joelhos¿ e ¿pedindo a Nossa Senhora¿ que lhe ¿desse força para enfrentar as maldades do homem cristão¿. Lembrando-se da passagem bíblica das Bodas de Canaã, afirmou: ¿A minha hora não chegou.¿
Munido de duas folhas de papel em branco, com assinaturas não reconhecidas, o senador disse que entregava às presidências do Congresso e do Supremo (STF) duas autorizações para que alguém localize, ¿em qualquer lugar do mundo, do planeta Terra¿, conta bancária que não seja a conta salário de senador e a que ele tem no Banco de Brasília (BRB).
Ao final do discurso, o senador Tião Viana (PT-AC), que presidia a sessão, não recebeu as folhas em branco e aconselhou Roriz a transformar as autorizações em ofícios.
Lembrando que é um parlamentar que até hoje ¿não conheceu o sabor da derrota¿, Roriz fez um discurso afinado com os bastidores políticos do dia. Imitando o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que levou a crise para dentro do Palácio do Planalto e ontem passou o dia colhendo apoios do presidente Lula e dos ministros, ele tratou de se apresentar como amigo do senador José Sarney (PMDB-AP) e na mesma situação de Renan, que considera injusta.
¿Se pedir dinheiro emprestado é falta de decoro, a que ponto chegamos! Vou continuar fazendo o que sempre fiz¿, arrematou o senador, no fim do discurso. Segundo ele, só tomou os R$ 300 mil emprestados do cheque de R$ 2,2 milhões, de Nenê Constantino, por ser amigo íntimo do empresário. No mais, julgou, seus adversários estão antecipando a disputa de 2010.