Título: Negociação de acordo com a UE deve ser iniciada até outubro
Autor: Otta, Lu Aiko
Fonte: O Estado de São Paulo, 27/06/2007, Economia, p. B9

As negociações em torno de um acordo comercial entre o Mercosul e a União Européia (UE) deverão ser retomadas em setembro ou outubro, disse ontem o embaixador da Comissão Européia no Brasil, João Pacheco. O tema, porém, poderá ser relançado já na próxima semana, durante a reunião de cúpula Brasil-União Européia, programada para o dia 4, em Lisboa.

Na pauta consta uma discussão sobre as dificuldades de conclusão da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC) e o conseqüente fortalecimento das negociações de acordos bilaterais.

'A cimeira será uma oportunidade para os presidentes debaterem a situação', comentou o embaixador. Ele frisou que a prioridade para a Europa é o acordo multilateral da Rodada Doha. Essa é também a opção da diplomacia brasileira. 'Mas, se não conseguirmos, temos de constatar que não conseguimos e virar-nos para a negociação bilateral', disse.

Na avaliação do embaixador, as últimas tentativas para chegar a um acordo na Rodada Doha deverão prosseguir até o fim de julho. Depois, a solução será buscar acordos bilaterais, como o Mercosul-União Européia.As chances de êxito dessa negociação são maiores do que as da Rodada Doha. 'É claro que é mais fácil', disse, sem deixar de reconhecer que, ainda assim, as dificuldades são grandes.

Um dos fatores que tornam a negociação do Mercosul com a União Européia relativamente menos complicada, segundo Pacheco, é a ausência de países de peso, como China e Estados Unidos. Na Rodada Doha, a presença dos chineses dificulta avanços na abertura comercial para produtos industriais. Já os Estados Unidos exercem forte pressão contra cortes nos subsídios à agricultura.

DIFERENÇA

Outro ponto positivo, avaliou o embaixador, é o fato de, hoje, o Mercosul estar em melhor condição econômica do que em 2004, quando as negociações em torno do acordo comercial chegaram ao impasse. 'Em 2004, estávamos saindo da grande crise argentina', recordou. Na época, a Argentina se recusou a fazer maior abertura no mercado de automotivos.

A cúpula Brasil-União Européia será uma ocasião para alinhavar os próximos passos porque participam personagens importantes dos acordos comerciais. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, e o comissário europeu para o Comércio, Peter Mandelson, estarão presentes na reunião de cúpula, acompanhando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da Comissão Européia, José Manuel Durão Barroso.

Também está prevista a presença dos primeiros ministros de Portugal, José Sócrates, da Eslovênia, Janez Jansa, e da Alemanha, Angela Merkel, além do ministro brasileiro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, e dos comissários europeus para Relações Exteriores, Benita Ferrero-Waldner e Política Externa, Javier Solana.

Do lado brasileiro, a indicação é que não se deve esperar nenhum avanço do encontro de Lisboa, pois não se trata de uma reunião negociadora. O evento se refere ao Brasil e não estarão presentes os demais sócios do Mercosul. Além disso, os acordos comerciais não são o tema central da cúpula.

O ponto principal da cúpula é o lançamento de uma parceria estratégica entre Brasil e União Européia em áreas como direitos humanos, clima e ciência e tecnologia. Nisso, o Brasil está atrasado. É o último integrante do chamado Bric (grupo de economias emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China) a ser contemplado com tal aliança. 'Antes tarde do que nunca', comentou João Pacheco. O ato marcará o início da presidência portuguesa da UE.

FRASE

João Pacheco Embaixador da União Européia no Brasil

'A cimeira (do dia 4, em Lisboa) será uma oportunidade para os presidentes debaterem a situação. As chances de êxito da negociação de um acordo comercial da União Européia com o Mercosul são maiores que as chances da Rodada Doha. Nas negociações de 2004, estávamos saindo da grande crise argentina'