Título: Argentina rejeita concessões à OMC
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/06/2007, Economia, p. B5
A Argentina informou que não está disposta a abrir seu mercado como resultado da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), alegando que uma liberalização poderia frear o processo de 'reindustrialização' que vive o país. Esse foi o recado da senadora Christina Kirchner, primeira-dama e senadora, e eventual candidata à presidência da Argentina, que esteve ontem na entidade máxima do comércio, em Genebra.
A posição da senadora contrasta com a avaliação do Brasil sobre as concessões que os emergentes terão de fazer para que se chegue a um acordo. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou na semana passada, durante a reunião do G-8, na Alemanha, que o Brasil estava disposto a fazer concessões.
'Precisamos proteger nosso processo de reindustrialização', disse a senadora, que insinuou uma comparação entre as receitas da OMC e do Fundo Monetário Internacional (FMI) que, segundo ela, levaram a Argentina a uma crise. 'O FMI teve uma receita para a Argentina que acabou em grave implosão social. Mostramos que quem tinha razão éramos nós. Não por uma questão dogmática, mas com resultados econômicos e sociais. Não quer dizer que sempre temos razão, mas pelo menos temos um crédito a favor quando dizemos algo.'
A Rodada Doha entrou em sua fase decisiva e, após seis anos, terá de fechar um acordo nas próximas semanas. Os países ricos alegam que só podem aceitar um corte de suas tarifas agrícolas se os emergentes aceitarem uma redução de 70% em suas taxas industriais.
O diretor da OMC, Pascal Lamy, foi enfático ao falar das concessões que a Argentina terá de fazer. 'Precisamos, em algum momento, de uma contribuição ativa (da Argentina).' Ele disse que conversou com Christina Kirchner sobre o tipo de concessões que a Argentina teria de fazer, 'obviamente respeitando suas sensibilidades'.
Para a Argentina, uma abertura está fora de questão. 'A proteção é que nos garantiu um processo de recuperação social, econômica e fiscal sem precedentes', afirmou a senadora. 'Não podemos permitir que nossa recuperação, que foi eficiente, seja desarticulada.'
Para ela, chegou o momento de os países ricos dizerem quanto estão dispostos a oferecer. 'Temos a sensação de que os ricos colocam sobre a mesa só o light, só cosméticos. Já o que colocamos (os países emergentes) é fat, com muito peso.'
O país aceita um corte de até 50% em suas tarifas. Enquanto os países ricos apresentaram uma proposta de redução de seus subsídios que, na prática, não teria efeitos. A senadora disse que não hesitará em lutar por seus interesses. 'Vamos tentar ser amáveis e educados (nas reuniões da OMC). Mas interesses são interesses.'
Christina Kirchner não falou com jornalistas, mas Jorge Taiana, chanceler argentino, garantiu ao Estado que a posição de Buenos Aires não é contraditória à do Mercosul. Por causa da tarifa externa comum entre os membros do bloco, o Mercosul terá de chegar a um acordo sobre até que ponto aceitará cortes de tarifas.