Título: Renan tentou convencer colegas até 3 da manhã
Autor: Fontes, Cida e Scinocca, Ana Paula
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/06/2007, Nacional, p. A8

¿Não vou desonrar o Senado e lutarei até o fim¿, disse a senadores do PT, PMDB e PSB; logo cedo, o peemedebista entregou novos documentos

Assim que o Jornal Nacional da TV Globo de quinta-feira saiu do ar, depois de mostrar uma série de personagens negando que tivessem comprado o gado que alega ter vendido em Maceió e municípios vizinhos, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), saiu a campo a fim de preparar os aliados para a reunião do Conselho de Ética que estava agendada para ontem, às 10 horas. Na madrugada de sexta, Renan disparou telefonemas com uma jura: ¿Não vou desonrar o Senado e lutarei até o fim¿, disse a senadores do PT, PMDB e PSB, a quem entregou, logo cedo, nova documentação.

Os apelos aos senadores prolongaram-se em telefonemas dados até as 3 horas da madrugada. ¿Renan tem se mostrado muito seguro e tranqüilo¿, resumiu o senador Renato Casagrande (PSB-ES), que falou com o presidente do Senado por volta de 22 horas de quinta-feira. Renan repetiu a todos os interlocutores que, em 180 anos do Senado, ninguém havia sentado na cadeira de presidente para expor problemas pessoais. ¿Estão querendo me enfraquecer¿, desabafou numa alusão a adversários políticos de Alagoas.

Alegando que tem sangrado há 21 dias e, portanto, mais quatro não farão diferença - até terça-feira, quando haverá nova reunião do Conselho de Ética -, o presidente do Senado telefonou pelo menos dez vezes para Romero Jucá (PMDB-RR), que participava da reunião do colegiado mais parecendo seu advogado de defesa do que líder do governo. Por duas vezes, pela manhã, Renan saiu de seu gabinete e partiu para o corpo-a-corpo.

PÉRIPLO

Por volta de 9 horas, já estava com senadores do PT e do PSB. Nesse encontro manteve a estratégia de realizar a votação, calculando que tinha votos suficientes para arquivar o processo. Um senador sugeriu que saísse pelos fundos da sala para evitar o batalhão de jornalistas.

¿Deixa comigo¿, disse Renan recusando a oferta. Terminado esse périplo, foi para seu gabinete e convocou partidários do PMDB e o relator do processo, senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA). Uma nova avaliação foi feita e o senador José Sarney (PMDB-MA) insistiu, ao telefone, no desfecho rápido para não expor ainda mais o presidente do Senado.

Renan saiu novamente de seu gabinete e percorreu os corredores do Senado em meio ao tumulto e o nervosismo de senadores. A terceira reunião foi com a oposição. No gabinete do senador Marconi Perillo (PSDB-GO), conversou com representantes do PSDB e do DEM. Os senadores Jefferson Péres (PDT-AM) e Demóstenes Torres (DEM-GO) se recusaram a participar desse encontro.

Uma reunião reservada dos integrantes do Conselho de Ética com o presidente do Senado chegou a ser cogitada. Mas não prosperou por resistência de senadores tucanos consultados. Renan avaliou que a segurança para aprovar o relatório de Cafeteira já não era a mesma da manhã, sobretudo depois que Casagrande e Eduardo Suplicy (PT-SP) defenderam o adiamento.

PAPÉIS

Uma das táticas usadas por Jucá na reunião de ontem repetiu a performance do próprio Renan: acenar com documentos novos e definitivos ainda não divulgados. Com papéis nas mãos, que nem o presidente do Conselho de Ética, Sibá Machado (PT-AC), chegou a ver, Jucá fez uma defesa enérgica do presidente do Senado e garantiu ter com ele as cópias dos cheques nominais com que os compradores haviam pago o gado comprado em suas fazendas. Teria, também, as cópias dos documentos com as vacinações do gado e as guias de trânsito dos animais (GTAs).

Apesar desse entusiasmo, Renan concluiu que mesmo que vencesse a batalha de ontem, no Conselho de Ética, isso não estancaria a crise nem responderia às novas suspeitas. Pior, se insistisse na estratégia de votar poderia perder mais votos. A saída foi recuar e tentar, até terça-feira, encontrar uma solução política negociada com a oposição.