Título: Segundo turno deve confirmar 'Era Sarkozy'
Autor: Netto, Andrei
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/06/2007, Internacional, p. A20
Pesquisa aponta que partido direitista deve eleger ao menos 386 deputados
A direita francesa deve confirmar hoje sua vitória esmagadora nas eleições parlamentares, quando os franceses irão às urnas votar no segundo turno do pleito.
De acordo com institutos de pesquisa, a União por um Movimento Popular (UMP), partido do presidente francês, Nicolas Sarkozy, deve eleger entre 386 e 415 deputados - dos quais 109 já estão garantidos -, de um total de 577 vagas. O Partido Socialista deverá obter entre 121 e 149 postos. Unida, a oposição deve ficar com cerca de 35% das cadeiras.
Ao longo da semana passada, líderes socialistas e antiliberais sintonizaram discursos na tentativa de mobilizar o eleitorado de esquerda e extrema esquerda, o mais ausente no primeiro turno da legislativa - disputado no domingo passado com uma taxa de 40% de abstenção. Os ataques da esquerda concentraram-se na proposta de aumento do Imposto sobre Valor Agregado (TVA, na sigla em francês), feita pelo governo francês. Em parte pelas críticas da oposição, a rejeição à medida de Sarkozy já alcança 60% da opinião pública.
A vantagem na Assembléia Nacional, no entanto, não dará poderes absolutos a Sarkozy e ao premiê François Fillon, mesmo que o governo desfrute do que cientistas políticos franceses denominam 'estado de graça' em relação à opinião pública. 'A França tem tradição de contestação do poder nas ruas, uma cultura ensinada nas escolas de que o poder soberano pertence ao povo. Essa convicção é mais antiga que a Revolução Francesa', explicou ao Estado Stéphane Monclaire, cientista político da Sorbonne.
A força das ruas se explica pela necessidade de contrapor reis, imperadores e presidentes cujo poder, o Executivo, é mais forte do que o Legislativo.
É com as grandes mobilizações que a esquerda tentará enfraquecer o governo Sarkozy. A reação da oposição se dá com mais energia em torno de temas sensíveis, como alterações no sistema escolar e no mercado de trabalho jovem. Mas, de modo geral, os manifestantes são avessos a mudanças que resultem em redução do Estado de bem-estar social - causador da estagnação econômica e do déficit orçamentário do país, segundo a direita.
Quem mais espera pela reversão da 'onda Sarkozy' são os partidos de extrema esquerda, que estão reduzidos a pó. Segundo Olivier Dartigolles, porta-voz do Partido Comunista, 'é preciso uma oposição forte para organizar movimentos sociais de base e, ao mesmo, tempo construir uma alternativa política crível de esquerda'.
A julgar pelas 10 a 15 cadeiras que o Partido Comunista deve obter hoje, a sociedade francesa parece apostar na idéia de se virar sozinha.