Título: Revolta da praça ainda molda China
Autor: Hoagland, Jim
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/06/2007, Internacional, p. A23

A Praça da Paz Celestial (Tiananmen) está sonolenta neste junho. Turistas chineses trajando camisetas descansam ociosamente à sombra ao longo de seu perímetro norte. Duas pequenas viaturas policiais rodam suavemente em lados opostos da maior praça do mundo para garantir sua tranqüilidade. O olhar informa nisso e de outros modos que a China se distanciou muito da insurgência de estudantes, trabalhadores e algumas autoridades que capturaram o interesse e a admiração mundiais antes de serem brutalmente reprimidos há 18 anos - a última vez em que estive aqui.

Pequim tornou-se uma Godzilla urbana desde aquele junho de 1989: arranha-céus côncavos, convexos e com vigas em equilíbrio navegam erraticamente pelas cristas de uma infindável silhueta urbana perpetuamente imersa em smog. Esses cânions de fortalezas corporativas de aço e vidro atestam visualmente que dinheiro e ambição material eclipsaram totalmente as demandas por democracia - e honestidade no governo - que encheram as ruas num dos grandes momentos de protestos públicos pacíficos do século 20.

O ouvido também capta essa mensagem - da liderança comunista da China; de investidores estrangeiros que despejam dólares, euros e ienes na central manufatureira do mundo; e dos cidadãos comuns que falam dos 'acontecimentos' na Praça Tiananmen em junho de 1989 com grande cautela ou um embaraço mal disfarçado. Que idéia mais obsoleta você teve de perguntar o que resta do espírito de Tiannanmen, sugerem eles.

Afinal, o mundo se moveu na mesma direção após os anos 1980, uma década subvalorizada que foi rica em movimentos políticos de massa que derrubaram ditaduras na Polônia, Filipinas e Alemanha Oriental, e preparou o cenário para o desmantelamento da União Soviética em 1991. O fermento político dos anos 1980 rapidamente cedeu seu lugar a uma obsessiva preocupação popular com dinheiro e com a expansão de mercados livres pelo globo. Precisamente porque ficou incompleta, a revolta de Tiananamen ainda molda a China de hoje, embora de forma subterrânea. Os olhos e ouvidos de um visitante não contam a história toda. O governo comunista continua dirigindo o país de maneira quase tão assustada como quando seus soldados mataram centenas, provavelmente milhares de manifestantes há 18 anos.

BENEFÍCIOS MATERIAIS

A repressão da dissidência política organizada continua a ser uma ferramenta de controle para os líderes da China. Mas seu monopólio de partido único no poder baseia-se ainda mais em proporcionar taxas anuais de crescimento econômico em torno de 10% que possam trazer um fluxo altamente visível de bens de consumo e outros benefícios materiais à população urbana.

'O governo chinês faz muito para encorajar o desenvolvimento da economia e o consumo de bens, entretenimento e esportes. Mas qualquer mídia política seria altamente controversa', afirma Victor Yuan, diretor da mais sofisticada empresa de pesquisas de opinião e de mercado de Pequim. 'Isso traz uma verdadeira febre de empreendedorismo e uma cultura de internet altamente desenvolvida sobre qualquer tema, menos o discurso político.'

O presidente americano, George W. Bush, previu na semana passada que essa dicotomia poderia não durar - que as reformas no sentido do livre mercado inevitavelmente conduziriam à reforma política. Os líderes chineses não compartilham essa crença. Tampouco o faz o mais importante dissidente na China atual.

Bao Tong foi assessor sênior do primeiro-ministro Zhao Ziyang e teve papel decisivo na engenharia das reformas econômicas iniciais da China nos anos 1980. Mas foi preso por mostrar simpatia pelas manifestações pró-democracia. Transferido da prisão fechada para prisão domiciliar em 1996, só recentemente recebeu permissão para encontrar-se com jornalistas estrangeiros. Numa longa conversa na semana passada, ele confirmou que meus olhos e ouvidos não estavam captando a história toda. 'Sim, há mudanças. Quando eu caminhava hoje pelo parque, ouvi críticas ao governo que teriam provocado sentenças de morte no tempo de Mao Tsé-tung, mas nada disso pode ser publicado na mídia. Eles não permitirão nada que afete a situação política', disse o ex-funcionário de 74 anos. 'A mudança que você vê e ouve são as flores e as folhas. Mas não há nenhuma mudança na raiz. Esta é o controle do partido sobre tudo, incluindo o mercado. O dinheiro é hoje para os líderes o que a revolução foi para Mao - uma ferramenta de controle sobre o povo. A raiz inalterada é a ditadura de partido único.'

Então, os estudantes e trabalhadores de 1989 fracassaram? Não, responde Bao: 'Eles deveriam ter protestado, e o fizeram. O partido fracassou. O partido violou a Constituição e sua própria carta. Ele se tornou um Partido Comunista sem comunismo, sem nenhuma preocupação pelo povo. Eu me sinto orgulho dos que protestaram. E envergonhado da liderança.'