Título: Inovação deve ser o foco do BNDES de Coutinho
Autor: Brandão Junior, Nilson
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/06/2007, Economia, p. B4

Economista, que está no cargo há 45 dias, acredita que esse é o caminho para o Brasil ganhar competitividade no mundo globalizado

O economista Luciano Coutinho já deixou claro à equipe técnica do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que sua gestão será voltada prioritariamente a programas de incentivo à inovação industrial. Há anos, ele está convencido de que essa é a única forma de a indústria brasileira ganhar competitividade no mercado globalizado.

¿Ele está muito preocupado em criar produtos para o setor industrial¿, diz uma fonte do banco, comentando que Coutinho martela nessa tecla a cada discussão técnica ou reunião de diretoria. ¿Certamente uma das áreas de concentração da política do banco será a industrial¿, confirma o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, amigo de longa data de Coutinho, de quem foi parceiro de cátedra na Unicamp.

Classificando como ¿disciplinado e focado¿ o novo presidente do BNDES, ele lembra que Coutinho foi o autor do estudo mais abrangente sobre competitividade industrial, no fim dos anos 80. ¿Ele está preparando uma política industrial não com espingardinha de chumbo, mas para atiradores de elite.¿

O atual cenário macroeconômico será, na sua opinião, o principal obstáculo do BNDES no cumprimento da meta. ¿Os resultados do PIB no primeiro trimestre, para ser generoso, foram pífios. O câmbio e os juros atuais prejudicam os investimentos novos. Se não houver arrojo macroeconômico favorável, essa intenção do BNDES não vai produzir grandes efeitos. Não se pode remar contra a maré¿, comenta Belluzzo.

Hoje, Coutinho completa um mês e meio à frente do BNDES. Discreto ao extremo, ainda não promoveu nenhuma grande alteração na estrutura do banco. Convidou apenas três assessores e uma secretária para seu gabinete. No próprio banco, as apostas são de que uma mudança na diretoria - composta por seis membros - é apenas uma questão de tempo. ¿Temos de ter cautela para mexer num carro em alta velocidade¿, desconversou, há dez dias, ao ser indagado sobre uma eventual substituição de diretores.

Na semana passada, ao participar de um seminário técnico, a assessora da diretoria de Mercado de Capitais do BNDES, Helena Veiga, deu uma mostra de que o banco vai mesmo apostar na capacidade de a indústria elevar sua capacidade de competir. Segundo ela, está em estudos a redução das taxas atuais de financiamento à inovação, que já se situam em nível baixo para os padrões brasileiros: 6% ao ano.

Ao contrário de seus antecessores, Luciano Coutinho vem atuando muito afinado com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), ao qual o banco é oficialmente vinculado. Na prática, o que vinha ocorrendo é que o BNDES se reportava mais ao Ministério da Fazenda. Agora, Coutinho e o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, reúnem-se toda semana. Os dois costumam despachar na sede paulista do banco, às segundas e sextas-feiras. Coutinho vai ainda freqüentemente a Brasília, onde também mantém encontros com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. ¿Ele parece ter assumido uma postura de ministro da área econômica do governo¿, afirma um técnico do BNDES.

PRATICIDADE

Mesmo com toda a afinação, ele não participou ativamente do programa apresentado na semana passada pelo governo para socorrer os setores mais prejudicados com a valorização do real. Para alguns, teria confidenciado que preferia ter dado mais praticidade ao pacote, para facilitar as liberações de recursos pelo banco.

De qualquer forma, a imagem que o novo presidente firmou junto aos técnicos do BNDES é de alto conhecimento teórico e prático sobre o funcionamento do banco. ¿Ele tem grande discernimento para separar o que é realmente importante do que não é. Só se atém aos destaques de cada área, não discute periféricos¿, diz um técnico.

Nesta terça-feira, Coutinho - que vem evitando entrevistas exclusivas desde sua posse, em 2 de maio - reúne pela segunda vez a imprensa em entrevista coletiva. Vai falar sobre perspectivas de investimento para o período de 2007 a 2010. O assunto é tema de um livro que está sendo lançado, como coletânea de artigos de diferentes equipes técnicas do banco, sobre as perspectivas setoriais e globais do investimento produtivo.