Título: 'Não se pode fazer eutanásia no setor'
Autor: Brandão Junior, Nilson
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/06/2007, Economia, p. B4

Economista diz que medidas anunciadas pelo governo são emergenciais, para manter sinais vitais de um paciente terminal

O tecido industrial brasileiro está perdendo densidade. A avaliação é do coordenador do grupo de indústria e competitividade do Instituto de Economia da UFRJ, David Kupfer. Ele explica que o processo de substituição de produtos nacionais por importados prejudica áreas tradicionais (alimentos, vestuário, artefatos de plástico) e, principalmente, bens intermediários, que entram na fabricação de produtos finais. O quadro atual, diz, projeta um processo de desindustrialização. Para ele, as medidas de compensação aos segmentos mais afetados pelo real valorizado são apenas emergenciais. ¿Não se pode fazer uma eutanásia na indústria¿, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

Quais os efeitos do câmbio sobre a indústria?

Afeta mais os setores tradicionais porque são intensivos em mão-de-obra, com produtos mais simples e, por isso, ficam mais expostos à competição internacional. São os setores ligados à produção de itens de comer, vestir e da casa (alimentos e bebidas, vestuário, artefatos de plástico). Há, ainda, o efeito nas indústrias de bens intermediários, como componentes, partes e peças. Conforme o câmbio barateia, incentiva a importação. Somos competitivos em alguns intermediários, como o aço.

Já se enxerga substituição de produção nacional por importados?

Enxergo neste conjunto de componentes. Não em insumos básicos, como papel, celulose, siderurgia em que somos competitivos. Ocorre mais em produtos de plástico, insumos químicos, produtos de metal, intermediários que são muito sensíveis ao câmbio. Isso não se vê tanto nas estatísticas, mas está ocorrendo substituição. E, com ela, o que na academia se chama de um processo de perda de densidade da cadeia industrial.

Qual o risco do câmbio baixo para a indústria?

A indústria gera os melhores empregos e induz os empregos no setor de serviços. Vejo com preocupação um quadro em que o tecido industrial perde densidade. Além disso, uma parte importante da indústria associada aos bens de consumo não duráveis enfrenta esse problema. A julgar pelo que ocorre hoje, terá de passar por uma reestruturação com extensa eliminação de empresas.

A perda de peso da transformação reflete uma desindustrialização?

Isso projeta um processo de desindustrialização. Não é visível hoje, mas pode ser projetado, conforme essa situação perdure. O que me preocupa mais são os efeitos nos segmentos de partes e peças. No lugar de termos todas as etapas de produção, vamos nos concentrar em algumas etapas apenas.

Com esse câmbio a desindustrialização é, então, inevitável?

Tudo indica que sim. Com um câmbio a R$ 1,90, a questão é em quantos anos ocorreria.

O pacote do governo para apoiar os exportadores é suficiente?

Não é suficiente nem tem objetivo de longo prazo. É um pacote emergencial para minorar os custos e dar às empresas alguma capacidade de sobrevivência, para manter os sinais vitais do paciente terminal. Não se pode fazer uma eutanásia na indústria. É melhor ganhar tempo para encontrar formas de intervenção de longo prazo mais estruturantes.