Título: Futuro da indústria é incerto, dizem analistas
Autor: Brandão Junior, Nilson
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/06/2007, Economia, p. B4
Especialistas discutem se a perda de peso do setor industrial é temporária ou não tem volta
A grande dúvida que paira sobre o futuro da indústria no Brasil pode ser resumida numa frase do pesquisador Paulo Gonzaga, do Grupo de Conjuntura do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro: ¿A questão é se essa recente perda de peso (no PIB) é temporária ou uma tendência permanente.¿
Entre o segundo trimestre de 2004 e o primeiro deste ano, a indústria de transformação cresceu 7,5%, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) geral avançou 11,7%.
Estudo elaborado por Gonzaga mostra que a produção física cresce mais, desde 2002, nos setores extrativo mineral ou intensivos em insumos importados: máquinas para informática (178%), automotores (57%) e máquinas e equipamentos (42%). Ao mesmo tempo, encolhe a fabricação de vestuário (-20%)), calçados (-14%) e madeira (-6%). Esses setores foram mais fortemente afetados pelo real valorizado, o que levou o governo a adotar na semana passada um pacote de medidas compensatórias.
Edgard Pereira, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), é mais pessimista. Para ele, a perda de vigor do setor manufatureiro representa indício de que o País começa a passar por um processo de desindustrialização. ¿Isso pode ser visto assim. A medida da desindustrialização é a participação do segmento dentro do PIB¿, diz ele.
Essa posição está longe do consenso entre os economistas. ¿Apesar desses números, acho forte a idéia de que está havendo desindustrialização¿, afirma o economista Sérgio Valle, da MB Associados. A consultoria projeta que a economia brasileira avançará 4,5%, mas na indústria da transformação o avanço será de 3,3%.
¿O futuro da indústria, hoje, claramente é de expansão dos setores `commoditizados¿ (básicos, agrícolas ou minerais), onde temos larga vantagem comparativa, e contínua perda na indústria manufatureira tradicional, sem querer dizer que ela vai perder espaço. O mercado interno ajuda a manter essa indústria viva¿, diz Vale.
Para David Kupfer, professor do Instituto de Economia da UFRJ, o câmbio gera incerteza nos empresários. Embora concorde com a necessidade de ampliar investimentos em inovação, defendida pelo BNDES, ele argumenta que a própria situação cambial desestimula essa alternativa na perspectiva das empresas.
¿Há uma inconsistência, pois a taxa de câmbio exige resposta em inovação para que a indústria sobreviva, mas não dá os meios para que isso ocorra¿, diz (ler abaixo). ¿A solução é muito clara, mas os meios para atender isso são eliminados com o câmbio atual.¿