Título: Indianos apostam na América Latina
Autor: Dickerson, Marla
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/06/2007, Economia, p. B19
Investimentos de empresas indianas na região estão crescendo rápido, em busca de matérias-primas e novos mercados
Pergunte onde fica o Dr. Reddy¿s Laboratories nesta cidade industrial na região central do México e as pessoas locais lançarão um olhar curioso.
Muitos não conhecem a empresa, um das maiores companhias farmacêuticas da Índia, que comprou uma instalação de produção aqui no final de 2005 por US$ 59 milhões.
Talvez seja a primeira vez que ouvem falar de uma empresa da Índia fazendo negócios no México, mas não será a última.
Os investimentos indianos na América Latina são relativamente pequenos, mas estão crescendo rapidamente. As companhias indianas já investiram cerca de US$ 7 bilhões na região nos últimos dez anos, disse Rengaraj Viswanathan, diretor latino-americano do Ministério dos Assuntos Externos da Índia em Nova Délhi. Ele calcula que essa quantia facilmente será dobrada nos próximos cinco anos.
Enquanto a Índia se tornou um ímã para investimentos estrangeiros, as empresas indianas estão procurando oportunidades no exterior, motivadas pelo declínio das barreiras comerciais globais e pela acirrada competição doméstica. O olhar dela está caindo sobre a América Latina, onde a hiperinflação e a desvalorização da moeda não mais dominam o noticiário.
¿A América Latina está se tornando um mercado estável, cada vez mais crescente e próspero que oferece oportunidades para nossas empresas¿, disse Viswanathan.
Como a China, a Índia está tentando garantir suprimentos de energia e minérios para alimentar sua economia faminta. As firmas indianas têm participações acionárias em empresas de risco de petróleo e gás na Colômbia, Venezuela e Cuba. No ano passado, a Bolívia assinou um contrato com a Jindal Steel and Power, uma empresa com sede em Nova Délhi que planeja investir US$ 2,3 bilhões para extrair minério de ferro e construir um aciaria no país.
Ao mesmo tempo, as empresa indianas de tecnologia da informação estão abrindo filiais para estar mais perto de seus clientes ocidentais. A Tata Consultancy Service é a líder, empregando 5 mil técnicos em mais de uma dúzia de países latino-americanos.
A concorrência por funcionários de tecnologia na Índia elevou os custos lá, como aconteceu com a rupia frente ao dólar americano, o que intensifica o atrativo da América Latina.
As indústrias indianas, acostumadas a cuidar de clientes de baixa renda, estão descobrindo na América Latina um mercado natural. A Tata Motors formou uma joint venture com a Fiat para produzir picapes médias na Argentina. Os fabricantes de medicamentos genéricos tais como a Dr. Reddy¿s estão oferecendo alternativas de baixo custo numa região dominada por multinacionais americanas e européias.
¿Estamos procurando mercado para crescer¿, disse Puvvala Ydandhar, diretor da Dr. Reddy¿s.
PRESTÍGIO
Compartilhando tecnologia e empregando químicos, engenheiros e programadores, as empresas indianas estão ajudando a desenvolver recursos humanos na América Latina - e não apenas a extrair seus recursos naturais. Isso está elevando o prestígio da nação entre os líderes da região.
Alguns vêem a Índia como uma parceira em vez de uma rival que está lá para roubar seus recursos e empregos, uma preocupação comum aqui em relação à China.
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, viajou em junho para a Índia com um grupo de empresários. O México enviou sua maior delegação comercial de todos os tempos para a Índia em março e, recentemente, as duas nações assinaram um acordo de cooperação econômica. Em maio, o presidente do México, Felipe Calderon, cortou a fita da instalação em Guadalajara da Tata Consultancy Services. ¿Ele sabe que a melhor maneira de competir com a China é em serviços¿, disse Ankur Prakasha, gerente-geral da Tata no México.
¿Não estamos enviando aviões 757 cheios de indianos para esta parte do mundo para trabalhar. Estamos aqui para criar empregos e não para tragar as coisas com sofreguidão.¿
O México foi duramente atingido pela ascensão da China. As exportações chinesas de produtos têxteis, sapatos, aparelhos eletrônicos e outros bens ao consumidor custaram ao México dezenas de milhares de empregos em manufatura, e tiraram do país o lugar do segundo maior parceiro comercial dos EUA, além de inundarem seu mercado com produtos importados. O déficit comercial do México com a China apresentou recorde de US$ 22,7 bilhões no ano passado. A China investiu menos de US$ 100 milhões aqui desde 1994, segundo o Banco do México.
Já a relação comercial do México com a Índia, embora pequena, é muito mais equilibrada. O déficit comercial do México com a Índia foi pouco menos de meio bilhão de dólares no ano passado. Desde 1994 as empresas indianas investiram US$ 1,6 bilhão aqui, cerca de 17 vezes mais que a China. Viswanathan calcula que o investimento indiano no México seja de US$ 3 bilhões.
Parte desses investimentos é em indústrias básicas e nas fábricas ¿maquiladoras¿, que fazem mercadorias para exportação. A maior siderúrgica do México é de propriedade da Arcelor Mittal, cujo presidente é o magnata indiano Lakshmi Mittal. A firma de produtos eletrônicos ao consumidor Videocon possui uma fábrica em Mexicali, que produz tubos de imagem para televisão.
Mas empresas de tecnologia da informação, incluindo a Sasken Communication Technologies e a Hexaware Technologies, também estão estabelecendo operações no México. A Infosys Technologies está construindo um centro de serviços no norte do México e empregará mil pessoas, disse o porta-voz Peter McLaughlin. A empresa proverá consultoria e serviços burocráticos, tais como contabilidade para clientes da empresa nos EUA e na América Latina.
McLaughlin disse que a empresa escolheu Monterrey porque gostou da infra-estrutura, do grau de instrução dos trabalhadores, abundância de talentos bilíngües e proximidade com os Estados Unidos. ¿É imperativo servir nossos clientes no fuso horário conveniente para seus negócios.¿
As companhias farmacêuticas indianas também estão achando que a América Latina é um território para expansão. Firmas como a Ranbaxy Laboratories, Aurobindo Pharma e a Cadila Pharmaceuticals têm operações de vendas ou manufatura na região.
Com sede em Hyderabad, a Dr. Reddy¿s vende antibióticos, medicamentos para o estômago e antialérgicos por toda a América Latina. Mas a fábrica mexicana, comprada da Roche, é a primeira joint venture de fabricação na região.
O principal produto da fábrica é a naproxena, o princípio ativo de analgésicos vendidos sem receita médica.
Yugandhar, da Dr. Reddy¿s, disse que a compra foi atraente por várias razões. A fábrica é aprovada para exportações para os EUA.
Isso posicionou a empresa para se expandir no México e a compra, realizada da noite para o dia, transformou a Dr. Reddy¿s na maior fornecedora mundial de naproxena. ¿Queremos estar entre as dez principais do mundo em genéricos¿, disse Yugandhar.
Yugandhar é o único indiano da fábrica, mas disse que tem tido poucos problemas. Embora não existam restaurantes indianos nas redondezas, a condimentada culinária mexicana tem ajudado a preencher o vazio. Ele estuda espanhol, mas a maioria das reuniões são realizadas em inglês.
O diretor da fábrica, Francisco Casillas, disse que os donos indianos são cientistas de primeira categoria, altamente conscientes dos custos, uma herança do competitivo mercado indiano. Ele sente falta dos recursos abundantes que a fábrica tinha quando seus donos eram europeus. Mas aprendeu a respeitar os métodos indianos.
¿Eles estão sempre procurando mais eficiência e economia de custos¿, disse Casillas, que mantém uma estatueta do deus hindu da boa sorte, Ganesh, aquele com cabeça de elefante, sobre sua mesa. ¿Eles têm nos ensinado muito.¿