Título: Democracia desafiada pela pobreza
Autor: Garton Ash, Timothy
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/07/2007, Metrópole, p. C4
Eles geralmente começam a trabalhar com as gangues de traficantes de drogas aos 13, 14 anos. Os mais velhos têm cerca de 21 anos. O que acontece depois? A maioria deles está morta. Eles morrem em tiroteios com outros criminosos ou com a polícia ou são assassinados nas infernais prisões da cidade.
Estou em uma das vielas enlameadas e tortuosas da favela do Real Parque, no Morumbi, zona sul de São Paulo. Por toda volta, a poucos metros de distância, posso ver blocos de apartamentos de um dos bairros residenciais mais ricos de São Paulo - cada bloco pintado com requinte é cercado por altos muros e cercas elétricas. Garotos ricos da escola particular do outro lado da estrada visitam a favela em busca da sua dose de maconha ou de crack. ¿É uma espécie de drive-thru¿, diz o meu guia, um graduado em universidade que escolheu viver aqui e trabalhar num projeto comunitário.
Como as mães reagem quando seu filhos ingressam no narcotráfico? ¿Elas vão à igreja¿. Emergindo de uma viela estreita, encontramos um das igrejas neopentecostais que são tão populares entre os pobres do Brasil. Na realidade, não é mais que uma edificação pobre, feita de blocos de concreto de cinzas, com um letreiro pintado a mão. Em frente da igreja, há um grupo de adolescentes em elegantes agasalhos esportivos e pares de tênis. ¿Nada de fotografias¿, diz o meu guia.
Eles são os traficantes. Esses garotos preferem uma vida curta e excitante numa gangue do tráfico do que a perspectiva de passar anos enfadonhos trabalhando como jardineiros, lavadores de carro ou passeadores de cães para a vizinhança rica. Isso derrota a escola. Mesmo como um novato olheiro do tráfico, você ganha mais do que um professor. Então, por que se importar com a educação? Retornando ao entardecer ao longo de uma rua de lojinhas e bares instalados em casebres, encontramos um cara de cabelo rastafári, apresentado como Cacau. Ele é um artista do hip-hop, cujo nome artístico é Mc Magus. Ele canta sobre o cotidiano deles? Certamente.
Bem ali, na rua empoeirada, ele começa a cantar um rap: ¿Dias idênticos difíceis de suportar, um povo oprimido na servidão/escravidão por normas, propostas e homicídios¿ (soa melhor com a batida do hip-hop). Ele fala da opressão, da falta de esperança e da discriminação que é também racial, pois a maioria das pessoas daqui, como na maior parte das favelas, são negras. Mais tarde, a namorada dele imprime para mim um cópia dessa canção - Caminhando na Escuridão - no velho computador da casinha minúscula de bloco de concreto deles. E nós conversamos. De certa forma, as coisas melhoraram desde que as gangues do tráfico assumiram o controle do lugar, diz MC Magus. Ao menos eles mantêm a paz na favela. E a polícia? Ele solta uma risada. ¿Eles vêm aqui só para arrecadar sua parte do lucro das drogas.¿
Das mais de 19 milhões de pessoas que habitam o enorme aglomerado urbano que é a Grande São Paulo, cerca de 2,5 milhões moram em favelas. Esta do Real Parque é uma das melhores. ¿Oh, essa é a Chelsea das favelas¿, me diz, com um sorriso, um especialista local em violência urbana.
MISÉRIA EM SÃO BERNARDO
Para ver situações piores, você precisa viajar de carro por ao menos uma hora até um lugar como São Bernardo, a cidade onde o presidente Lula cresceu em extrema pobreza e fez seu nome como líder sindical das montadoras de veículos. Aqui os casebres miseráveis abundam na paisagem até onde a vista alcança. Para aqueles que aqui moram, minha hora de carro significa quatro horas de ônibus e a pé para chegar ao trabalho (se tiverem sorte) como empregada (o) doméstica (o) em um dos bairros chiques. ¿Minha empregada¿ é uma abertura característica das descrições da parcela dos pobres urbanos feitas pelos bons liberais de esquerda de São Paulo, enquanto desfrutamos um excelente almoço nos fabulosos restaurantes da cidade. Como ¿minha empregada acorda às 4 horas da manhã para estar no meu apartamento às 8 horas.¿
O Brasil é, ao lado da Índia e dos Estados Unidos, uma das maiores democracias do mundo. Tem sido uma democracia séria há pouco menos de 20 anos e passou no teste da transição pacífica de poder entre partidos e presidentes rivais. Esta jovem democracia tem sobrevivido a crises econômicas, a um complexo sistema federativo e a recorrentes escândalos de corrupção. Tem uma imprensa livre e vibrante. Os militares, que antes governaram o país, agora assumiram um segundo plano. Trata-se de um país que, sob muitos aspectos, é uma experiência inspiradora. Mas a questão que se impõe é: por quanto tempo é possível manter uma democracia liberal com tais extremos de desigualdade, pobreza, exclusão social, criminalidade, drogas e anarquia? Na vizinhança, na Venezuela de Hugo Chávez, você vê a tentação populista do presidente eterno.
De fato, existe a questão de até quando você pode chamar isto de uma democracia liberal, dados tais extremos. O acadêmico da área jurídica Oscar Vilhena Vieira argumenta que não se pode falar propriamente de Estado de Direito - um dos fundamentos da democracia liberal em oposição à democracia eleitoral - quando basicamente não existe igualdade perante a lei. Aqui, os poucos privilegiados estão acima da lei (uma Paris Hilton brasileira não teria ficado atrás das grades), e os muitos pobres estão abaixo dela. Os ricos desfrutam de imunidade virtual em relação à polícia local, e a polícia local desfruta de imunidade virtual em relação a qualquer coisa que possa fazer aos pobres, que também acontecem de ser, na maioria, negros.
Nas favelas, muitos assassinatos ficam não apenas impunes mas nem mesmo são investigados. Numa escola estadual na cidade de Lula, São Bernardo, fui convidado a assumir uma aula de inglês por alguns minutos. O que eles queriam ser quando crescessem? perguntei. ¿Um policial¿, gritou um menino de 11 anos. Por quê? ¿Para que eu possa matar pessoas.¿ E ele fez gestos imitando disparos de armas de fogo. Bangue-bangue.
Estou contando isso exatamente como aconteceu. Não fiz uma pergunta deliberadamente direcionada. Conferi duas vezes a tradução do que o menino disse. É bastante chocante tropeçar com tanta facilidade num mundo que, na sua essência, lembra de perto a pobreza, a violência induzida pelas drogas e a corrupção policial retratadas no absorvente filme de Fernando Meirelles, Cidade de Deus - tirando a música e o glorioso colorido.
Mas é preciso evitar a armadilha do clichê jornalístico e não ignorar o outro lado da história. MC Magus me disse que não gostou de Cidade de Deus porque o filme mostra apenas o lado ruim. A maioria das pessoas daqui tenta buscar uma vida decente, de trabalhador, apesar das péssimas condições. Ele próprio trabalha longas horas entregando pizzas na sua motocicleta. Ainda na véspera de minha visita, houve uma grande festa de rua para celebrar o dia de um santo popular. Nas favelas, existe um crescente número de pequenas empresas e empreendedores. Notáveis ativistas de ONGs, como meu guia, tentam abrir os horizontes das pessoas, com computadores, teatro, esportes ou hip-hop.
Sob dois presidentes sucessivos, Lula e seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, os governos tentaram expandir as oportunidades de emprego, treinamento profissional e, acima de tudo, escolaridade básica. Cerca de dois terços das crianças na escola onde estive brevemente como professor convidado estão lá em parte porque suas famílias recebem benefícios sob a condição de que as crianças tenham uma freqüência escolar de 85% (o dinheiro é pago diretamente à mãe.) ¿As crianças que contam com o benefício comparecem¿, disse o diretor da escola. O quanto elas aprendem é outra questão, dado o fato de que existem três turnos, manhã, tarde e noite, com 45 alunos por classe e professores sobrecarregados com salários indignos.
¿Quero ser médica¿, disse uma menina da terceira fila da sala de aula, atrás do candidato a policial. Por quê? ¿Quero salvar vidas.¿ O futuro da democracia liberal no Brasil dependerá daqueles que conseguirem realizar seus sonhos de infância.