Título: A escada rolante de Lula
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/07/2007, Notas & Informações, p. A3

O presidente Lula inovou - e se traiu. Discursando na abertura da 3ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, terça-feira, em Fortaleza, quando anunciou um reajuste de 18,25% nos benefícios do Bolsa-Família, ele brindou a platéia com as desmedidas hipérboles de costume. Exemplo: ¿A verdade nua e crua é que poucas vezes se pensou em política social como pensamos.¿ Outro: ¿Tirando Getúlio Vargas, quero saber quem esteve tão perto dos pobres.¿ Outro ainda: ¿O PAC é o mais planejado programa de investimentos já feito. Duvido que em 118 anos de República o Brasil tenha vivido um momento tão importante como este.¿

Ficasse nisso, a prosa presidencial talvez pudesse passar sem registro. Afinal, como se diz, é apenas mais do mesmo. No máximo, caberia lembrar que, nos quatro anos do primeiro mandato, havia uma lógica na sua verborréia desenfreada e no auto-endeusamento: tratava ele de ocupar todo o espaço que pudesse porque havia uma urna no fim do caminho. E o que mais fez desde o seu primeiro dia no Planalto foi percorrê-lo. Foi também ao verbo solto que apelou para reaver a popularidade combalida pelo mensalão em 2005. Deu certo, como se viu.

Agora - embora o ¿comício de cada dia¿ autorize qualquer um a suspeitar que Lula está cuidando do terceiro mandato - parece ser outra, extra-eleitoral, a explicação para a recaída do presidente. O exercício cotidiano da oratória - quase sempre com mais de um discurso por dia - lhe permite, em primeiro lugar, multiplicar as prazerosas oportunidades para se escutar a si mesmo dizendo que é o maior - o ditado que diz que elogio em boca própria é vitupério decerto não figura no seu repertório de platitudes. Segundo, proporciona um benefício adicional: cada minuto a mais ao microfone é um minuto a menos à mesa de trabalho, onde o gratificante aplauso da multidão é substituído por uma enfadonha papelada a desbastar e pelo desconforto das decisões a tomar.

Aqui já podemos explicar por que iniciamos este editorial afirmando que, no discurso de Fortaleza, ele inovou e se traiu.

A inovação está numa metáfora que, diria ele, nunca antes este país teve ocasião de ouvi-lo proferir. Em dado momento da sessão congratulatória, Lula advertiu o público, no seu estilo coloquial de sempre, a ¿não perder a noção das conquistas que a gente já teve¿. E emendou: ¿Estamos subindo a escada rolante.¿ Nessa hora, a Providência como que privou o presidente de atinar para a mais do que óbvia diferença entre subir uma escada convencional e outra, que faz o trabalho de um elevador. Na primeira, há que despender algum esforço, conforme o número e a inclinação dos degraus. Na segunda, ficar imóvel é o bastante para alcançar o topo. Eis, sem tirar nem pôr, o sonho dourado de quem, forçoso reconhecer, trabalhou tanto para subir na vida.

Mas uma coisa é a trajetória pessoal. Outra, as servidões do poder: informar-se, avaliar, decidir - e zelar para que as decisões não feneçam no papel em que se as formalizou. Ou seja, subir com as próprias pernas a íngreme escada que o chefe de governo encontra à sua espera, desafiadoramente, ao adentrar todo santo dia o seu gabinete. Seria bom se fosse possível gerir uma nação acionando um mecanismo que movimentasse as engrenagens da administração pública sem exigir os proverbiais 99% de transpiração de quem a preside. Quando se faz de conta que essas atribulações podem ser dribladas com movimentos retóricos, há um preço a pagar - que recai sobre o país mal administrado. Ou será que não há nexo algum entre a baixa produtividade do presidente e, por exemplo, o medíocre crescimento da economia?

De uns tempos para cá, também a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a capitã do (ainda incompleto) time lulista, deu de fazer coro com o chefe a quem passou a acompanhar com inusitada freqüência - ou se manifestar por ele. Na segunda-feira, a ministra estava no Rio, apresentando o rol de projetos a serem financiados pelo PAC. No dia seguinte, já em Fortaleza, foi Dilma quem respondeu pelo governo ao ultimato do coronel Hugo Chávez. Essa exposição seria parte de um plano de Lula para fazer dela, eventualmente, sua candidata em 2010? Se é disso que se trata, quem ficará tomando conta do governo enquanto ele faz discurso?