Título: Roriz renuncia ao mandato após Senado decidir processá-lo
Autor: Scinocca, Ana Paula e Costa, Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/07/2007, Nacional, p. A4

Sem explicar destino de R$ 2,2 milhões recebidos de empresário, ex-governador tenta preservar direitos políticos

Depois de 39 anos seguidos na política, Joaquim Roriz (PMDB-DF), que se orgulhava de ¿não conhecer o sabor da derrota¿, renunciou ontem ao mandato de senador conquistado nas eleições do ano passado. Foi uma renúncia melancólica, formalizada por meio de uma carta lida pelo senador Mão Santa (PMDB-PI), às 21h15, para um plenário com apenas quatro senadores.

O desfecho, contudo, poupou-o da perda de direitos políticos e ele poderá disputar um cargo eletivo em 2010 - o Distrito Federal não tem eleições municipais no ano que vem. A manutenção desse direito se deve a uma manobra da Mesa Diretora, que protelou a entrega da decisão ao Conselho de Ética. Pela legislação, quando o conselho anuncia a abertura do processo, os parlamentares perdem o direito de renunciar e, se cassados, de manter os direitos político-eleitorais.

A renúncia de Roriz se deu sete horas depois de a Mesa Diretora do Senado ter decidido abrir processo por quebra de decoro parlamentar e 11 dias depois de reportagem do Estado ter mostrado que ele havia sido flagrado em escutas telefônicas, na Operação Aquarela, negociando a partilha de um cheque R$ 2,2 milhões com o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Tarcísio Franklin de Moura. Roriz disse que retirou R$ 300 mil para pagar uma bezerra chamada Miragem e devolveu o restante R$ 1,9 milhão ao empresário Nenê Constantino, dono do cheque. Nem Roriz nem Constantino conseguem provar que o ¿troco¿ teve mesmo esse destino.

Ontem, a Mesa Diretora decidiu pela abertura do processo, mas, ao mesmo tempo, patrocinou a manobra a fim de dar tempo ao peemedebista para negociar com os aliados a renúncia. A reunião da Mesa foi presidida pelo senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que também está sob investigação do Conselho de Ética. A representação para abrir o processo contra Roriz foi feita pelo PSOL.

MANOBRA

O senador e ex-governador do DF pediu formalmente à Mesa que a decisão sobre a representação do PSOL não fosse tomada ontem e lhe fosse concedido um prazo de pelo menos 48 horas para provar sua inocência. Em vez de lhe conceder o prazo - o que seria considerado ¿escandaloso¿, segundo disse um senador ao Estado -, a Mesa protelou a entrega formal da ata da decisão ao Conselho de Ética, o que permitirá a manutenção de seus direitos políticos.

O discurso de renúncia de Roriz chegou à Mesa Diretora quando transcorria uma sessão com plenário vazio, no qual estavam apenas Eduardo Suplicy (PT-SP) e Wellington Dias (PMDB-MG), debatendo sobre a Renda Básica de Cidadania. Gilvam Borges (PMDB-AP) anunciou que faria um comunicado importante. Em seguida, coube ao senador Mão Santa (PMDB-PI), secretário substituto, ler o discurso de nove minutos, que ocupava duas páginas.

Ressaltando que vivia hora de ¿grave decisão¿, Roriz afirmou na carta que, com ¿farta documentação¿, demonstrou ¿cabalmente a lisura¿ de sua conduta política. Criticou a condenação pública que sofreu pela mídia: ¿O furor da imprensa, o açodamento de alguns, as conclusões maliciosamente colocadas lamentavelmente ecoaram mais alto. Pesou apenas o propósito de destruir, neste momento, uma vida coroada por relevantes serviços prestados à sociedade, particularmente ao povo mais humilde do Distrito Federal¿, escreveu Roriz, quatro vezes governador do DF.

Uma parte da carta de renúncia foi usada para se queixar do próprio Senado e do corregedor, Romeu Tuma (DEM-SP) - que havia dito, mesmo sem ter sido aberto processo, que a situação do senador era ¿grave¿ e os fatos apurados pela polícia eram consistentes. Roriz lembrou que, na quinta-feira da semana passada, quando discursou no plenário da Casa, havia apenas uma dúzia de parlamentares na platéia.

¿Apenas 12 eminentes senadores compareceram à sessão¿, ressaltou. Segundo ele, seu alento está no fato de que até mesmo o Ministério Público considerou que os fatos a ele imputados ¿não guardam a mínima correlação com a malfadada Operação Aquarela¿. E concluiu: ¿Nesse ponto lamento ter tido acesso aos autos apenas na data de ontem.¿

TRECHOS DA CARTA

¿Somente me pesa na consciência o mal que venho sofrendo, que tanto me tortura e procura turvar uma vida pautada na dignidade pessoal, no respeito ao semelhante, no resguardo da coisa pública, no profundo sentimento cristão¿

¿O furor da imprensa, o açodamento de alguns, as conclusões maliciosamente colocadas lamentavelmente ecoaram mais alto¿

¿Meu alento está em que até mesmo o Ministério Público fez ressaltar que os fatos a mim imputados não guardam a mínima correlação com a malfadada Operação Aquarela¿

¿A gente de Brasília, os humildes aos quais nunca faltei com meu carinho e assistência - o povo, enfim- haverá de me entender¿