Título: 'Eu espero toda a reparação de direito'
Autor: Assunção, Moacir
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/07/2007, Nacional, p. A12
Entrevista
Cabo Anselmo: ex-marinheiro
Aos 65 anos, vivendo sob falsa identidade, ele alega que teve de colaborar com a polícia para não morrer
José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, é um personagem controverso da história brasileira. Responsável, quando presidente da Associação de Cabos e Soldados da Marinha, por um discurso, em 25 de março de 1964, que ajudou a derrubar o então presidente João Goulart, Anselmo foi preso e se tornou agente da repressão. Hoje, aos 65 anos, vive sob falsa identidade e alega que colaborou com a polícia para não morrer, após ser preso pelos homens do delegado Sérgio Paranhos Fleury.
Em conseqüência das delações de Anselmo, várias organizações de oposição ao regime militar foram desmanteladas. No caso mais conhecido, o Massacre da Chácara São Bento, ele denunciou seis militantes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) no Recife. Todos acabaram mortos pelos homens de Fleury. Um deles era a militante comunista Soledad Barret Viedma, sua companheira, grávida de sete meses.
Apesar disso, Anselmo, que vive escondido sob identidade falsa, diz que ¿contribuiu com seus carcereiros com o objetivo de salvar vidas¿. E pede sua recondução ao posto de subtenente da Marinha. A seguir, trechos da entrevista por e-mail com intermediação de seu advogado, Luciano Blandy, que diz também ter dificuldades para encontrá-lo.
Há quem argumente que a indenização deve ser concedida às vítimas da ditadura, o que não seria o seu caso, já que o sr. ¿passou para o outro lado¿. Como vê isso?
As diversas versões da esquerda sobre os fatos afirmam que passei para o outro lado. Que lado? Apenas cumpri as ordens dos meus carcereiros que me vigiavam 24 horas por dia. E sabiam mais do que eu mesmo sobre pessoas e movimentos da esquerda. Diante disso, o preso Anselmo, aterrorizado, percebeu a fragilidade de uma luta que levava a tantas mortes inconseqüentes. Tenho consciência de que dei uma contribuição para limitar a violência e mortes de tantos que hoje podem usufruir deste novo Brasil.
Como estão suas condições de vida e de saúde? De que sobrevive?
Nos anos posteriores aos tristes eventos do Recife, trabalhei duro numa empresa de corte e transporte de madeira. Durante algum tempo pude sobreviver com atividades diversas, sempre distanciado dos grandes centros urbanos.
Compararia sua situação com a do capitão Lamarca, também visto como traidor pelos militares?
De certo modo sim. Embora não tenha me afastado da Marinha por vontade própria, e sim em decorrência de um ambiente político: fui cassado no primeiro ato institucional, o AI-1. Eu, que aparecia como líder, na verdade era liderado, mesmo sem saber. Era levado pela onda de rebeldia e otimismo juvenil. Inconsciente do peso dos meus atos, acreditava estar certo.
O presidente da Comissão de Anistia, o professor Paulo Abrão, disse que seu caso não seria julgado ainda este ano? Há alguma prevenção contra o sr., em sua visão?
As pessoas que informam a Comissão de Anistia parecem manter o mito e guardar grande rancor. Tive oportunidade de ler manifestações as mais unilaterais, carregadas de ódio ideológico, mentiras, versões míticas.
Além do pedido de anistia, pretende entrar com outra ação judicial?
Desejo apenas que se cumpra a lei e espero toda a reparação de direito: meu nome, aposentadoria e a reparação que me permita tratar da saúde, recuperar os dentes, tentar sorrir e acreditar na humanidade, no perdão da anistia para todos os brasileiros envolvidos naqueles eventos. Os de um e os do outro lado.
O sr. pretende aparecer, ou seja, viver com identidade real?
Aparecer não. Isso parece provocação! Desejo sim continuar no anonimato podendo fazer alguma atividade útil e positiva no micromundo em que vivo. Quanto à identidade, é o que manda a lei e espero que seja honrada. Ou a minha cova rasa terá um nome qualquer dos tantos que utilizei na maior parte da vida.
Quem é: Cabo Anselmo
Era presidente da Associação de Cabos e Soldados da Marinha em 1964. Apesar do título, não passava de soldado.
Fez curso de guerrilha em Cuba, para onde fugiu, ajudado por Leonel Brizola.