Título: Erva, ferro e fogo
Autor: Ming, Celso
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/07/2007, Economia, p. B2
Este é um princípio da medicina de Hipócrates (460 a 377 a.C.): ¿Ferida que não cura com ervas, cura com faca. Ferida que não cura nem com ervas nem com faca, cura com fogo. Ferida que não cura nem com ervas, nem com faca, nem com fogo, provavelmente não tem cura.¿
Moeda nacional valorizada não é ferida exclusiva do Brasil. A tabela ao lado mostra o que está acontecendo aos países emergentes. Essa valorização reflete importante mudança do paradigma da economia mundial. Nos últimos dez anos, os tradicionais fornecedores de matérias-primas, entre os quais figura a maioria dos emergentes, passaram a contar com novos compradores entre os quais está um punhado de países asiáticos, figurantes de todas as listas: China, Índia, Coréia do Sul, Taiwan e por aí vai.
A valorização das moedas nacionais é essa aí, não apenas porque os países emergentes passaram a exportar volumes crescentes de alimentos e matérias-primas metálicas ou químicas. Os preços também saltaram. Os saldos positivos em conta corrente se elevaram, dívidas antigas foram sendo pagas e quase todos esses países adotaram uma política de amontoar reservas.
Por inúmeras razões exaustivamente expostas em outras ocasiões nesta coluna, estão equivocados aqueles que, como principal razão da valorização do real diante do dólar, apontam os juros elevados demais, que estariam atraindo capitais especulativos interessados em ganhar com a diferença entre juros internos e externos. Fosse isso, o Brasil seria o único ou quase único país emergente com moeda valorizada.
Essa não é situação passageira. Pode enfrentar certa volatilidade de demanda que será refletida na variação de números no curto prazo. Não consta que seja ferida incurável, mas veio para ficar. Ou seja, a valorização do peso chileno, do peso colombiano, do rublo russo, do rand sul-africano ou do real brasileiro vai continuar e poderá até se intensificar.
Razões de todo o tipo poderão, em princípio, reduzir o crescimento da China, dos atuais 12% ao ano para 8%. Ainda assim, será só crescimento mais baixo e não demanda mais baixa. Mesmo se o crescimento chinês vier a ser de apenas 1% ao ano, a tendência é e será de aumento das compras de energia, alimentos, matérias-primas e serviços básicos.
Se as moedas dos países emergentes continuarem valorizadas ou continuarem seu processo de valorização, de pouco adiantarão emplastros à base de ervas. Impedir, por exemplo, a entrada de capitais especulativos ou derrubar os juros artificialmente são falsos remédios porque não são os capitais especulativos que estão na origem do problema.
Restringir exportações com a cobrança de um imposto (confisco), como vêm defendendo alguns lobbies, é perder excelente oportunidade de continuar crescendo. E exigir que o Banco Central ou outro organismo do governo bloqueie ¿investimentos não desejados¿ tampouco faria sentido, porque não há investimentos não desejados.
Outra vez, a valorização do real está expondo a baixa competitividade do produto brasileiro que o câmbio favorável antes escondia. Como é esta a ferida, a terapia recomendada é cirurgia nos custos de produção e cauterização das despesas públicas. Isso implica baixar a carga tributária, desonerar a folha de pagamentos das empresas e, claro, reduzir os juros. Isso tem tudo para garantir a cicatrização.