Título: 'Banco Central não vai explicitar outra meta de inflação para 2009'
Autor: Oliveira, Ribamar
Fonte: O Estado de São Paulo, 01/07/2007, Economia, p. B18
Ministro diz que nada foi combinado na reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) e que a meta definida é de 4,5%
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, negou que o Conselho Monetário Nacional (CMN), na reunião de terça-feira, tenha alterado o sistema de metas para a inflação e permitido que o Banco Central (BC) passe a trabalhar com o intervalo de tolerância de 2,5% a 6,5%, sem levar em consideração o centro da meta. ¿Não combinamos nada disso no Conselho Monetário, disse Mantega, ao Estado. ¿O BC vai mirar em 4,5%¿. Ele negou também que o BC vá soltar um comunicado explicitando o seu objetivo de inflação para 2009. ¿O BC não vai definir nada porque a meta já está definida: 4,5%.¿ Segundo ele, a meta de 4,5% para 2009 ¿é a garantia de que a taxa de juro será menor¿. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Se a expectativa do mercado é de uma inflação de 4% em 2009, porque o CMN resolveu colocar uma meta maior, de 4,5%?
A previsão mais firme de 4% é para 2008. Se o mercado prevê 4% para 2009, eu acho ótimo. Mas nós temos que ter um grau de liberdade, caso esse otimismo não se verifique. Temos que pensar em alguma ocorrência inesperada. Por exemplo: agora, no cenário internacional, tivemos a elevação de preço dos alimentos, causada, principalmente, pelo leite. Felizmente, não nos afetou, embora o leite e derivados tenham subido aqui também, vários outros produtos alimentares diminuíram. Então, não houve uma pressão do conjunto dos alimentos. Mas uma alta do petróleo ou das commodities pode ocorrer. Então, para que deixar o BC com o dedo no gatilho?
Como assim?
O BC funciona com um modelo de inflação. Hoje, ele está olhando a inflação de 2008 e pauta a política de juros em função do resultado desse modelo. Esse modelo não permite que o centro da meta de inflação seja ultrapassado. O BC não trabalha com uma margem. Se ele trabalhasse com uma margem, tudo bem... Ele trabalha com os 4,5%. Hoje, esse modelo está dando 4% para 2008, a mesma coisa que o mercado está achando. Digamos que daqui a dois meses sobem os preços das commodities ou do petróleo. Aí, o modelo do BC passa a prever inflação de 4,2% para 2008.
Se a meta de fosse reduzida para 4%, o que o Banco Central iria fazer?
Elevar os juros.
Exatamente. Se a meta ficar em 4,5%, ele não fará isso. Porque correr esse risco?
Mas a política de metas tem bandas (o intervalo de tolerância é de dois pontos porcentuais abaixo e acima da meta) justamente para acomodar essas flutuações.
Tem bandas, mas o BC não trabalha com elas, quando olha a inflação de médio e longo prazo. Se o mercado aponta para uma inflação de 4% em 2008 e o modelo do BC também aponta, o Conselho Monetário poderia mudar o centro da meta do próximo ano (de 4,5%) para 4%. Mas se ocorrer uma pressão inflacionária e o modelo do BC apontar para 4,2% em 2008, ele mudará a política monetária. A inflação continuaria dentro da margem de tolerância, mas estaria acima do centro da meta. Nesse caso, ele puxaria o freio da economia. É assim que o BC atua. Ele pararia de descer os juros ou, se já estiver num patamar baixo, ele elevaria a taxa. A decisão de fixar a meta para 2009 em 4,5% é cautelar.
Foi decidida uma meta que o BC não vai perseguir... O sistema não ficou confuso?
Não mudou nada. O BC vai fazer exatamente o que fazia antes. Não mudou o sistema de metas, não ficou um sistema de bandas, não ficou banda assimétrica, nada disso. Ficou exatamente o mesmo sistema.
Mas agora ninguém sabe qual é a meta de inflação que o BC persegue...
É a mesma.
A mesma, qual?
Ele persegue 4,5%, mas, se a economia produzir uma inflação menor, digamos de 3,7%, por uma razão qualquer, muito bom.
O BC mira no centro da meta para fazer convergir para lá as expectativas inflacionárias do mercado. Agora o BC vai querer que as expectativas inflacionárias sejam convergentes para que ponto?
Em 2005, a inflação estava acima do centro da meta, que era de 4,5%. Mirar o centro quando a inflação estava acima significou praticar uma taxa de juro altíssima. O BC estava tentando puxar de um patamar mais alto para 4,5%. Quando a inflação está abaixo do centro da meta, o BC não tem que levar a inflação para 4,5%. Este é o equívoco de alguns. O centro da meta é um parâmetro. O que o BC diz é o seguinte: eu estou em um confortável 3,7%, o centro da meta será obtido com folga, então eu posso executar uma política monetária mais flexível e baixar os juros. Ele não deixa de levar em consideração o centro da meta, mas não se preocupa porque está abaixo dele.
Alguns especialistas acham que o CMN introduziu um elemento de incerteza e defendem que o BC explicite seu objetivo de inflação.
O BC não vai definir nada porque a meta (para 2009) já está definida: é de 4,5%. Ele não vai divulgar nenhum documento, definindo alguma outra meta ou coisa parecida. Agora, o BC vai tentar produzir a menor inflação possível, levando em conta os 4,5%.
Ele pode mirar em 3%?
Ele tem que mirar em 4,5%. Se as condições econômicas permitirem que a inflação seja mais baixa, ele continuará diminuindo a taxa de juro. É isso o que tem que fazer: diminuir a taxa de juro porque a inflação está sob controle e abaixo do centro da meta. Não vejo qual é a confusão. Se nós pudermos fazer uma inflação menor do que o centro da meta, faremos porque isso é desejável e benéfico para a economia. Mas, se houver alguma pressão inflacionária localizada, o BC levará em consideração os 4,5%.
Mas ele não vai explicitar o objetivo dele?
Não. Ele não vai explicitar.
Mas qual é a meta que ele colocará no modelinho dele?
Ele tem que colocar 4,5% no modelo dele. Isso permite que continue reduzindo a taxa de juro. Se a inflação está em 3,5%, alguns acham que o BC vai se esforçar para elevá-la a 4,5%. Esse é um entendimento errado.
Alguns acham que, ao propor 4,5%, o senhor quis abrir espaço para uma queda mais rápida dos juros...
É fato que, ao fixarmos a meta em 4,5%, a possibilidade de termos uma taxa de juro menor é maior. Pois essa meta dá maior grau de liberdade. É isso que estou tentando dizer. Ao estabelecer uma meta de 4,5%, tenho a garantia que o juro será menor. Estabelecer uma meta de inflação de 4,5% para 2009 significa apostar numa taxa de juro menor. Alguns interpretaram ao contrário. Essas pessoas disseram que, se fixasse a meta em 4%, o mercado já reduziria o juro... Isso é bobagem. Com uma meta mais flexível, o governo está garantindo que há menos chance de o BC reverter a tendência de redução de juros que está ocorrendo hoje. Portanto, há menos perigo de haver a interrupção do processo de crescimento sustentado. A minha preocupação é que o crescimento não seja abortado por um movimento inflacionário eventual. Agora, achar que eu quero mais inflação é besteira.
Tem quem ache que o próximo passo é acabar com o centro da meta.
Isso não está decidido. Isso é apenas uma conjectura de alguns, mas nós (os membros do CMN) não decidimos isso. Continua em vigor exatamente o mesmo sistema, como ele era praticado. Ou seja, a política monetária será a mesma. Ela não se moveu um milímetro. Teoricamente, a inflação pode transitar de 2,5% a 6,5%. Os bancos centrais de outros países não olham o centro. Mas o nosso BC, principalmente essa equipe que aí está, se acostumou a olhar o centro. O Armínio Fraga (ex-presidente do BC) não falava muito do centro da meta. São estratégias diferentes.
No seu voto ao CMN, o senhor chegou a sugerir que o BC persiga uma inflação próxima de 4%, que seria a inflação de longo prazo.
Principalmente para o ano que vem. Eu acho que a previsão de 4% é mais realista.
Então, para 2008, é razoável o BC trabalhe com uma inflação de 4%?
É razoável, pois nós estamos com 3,2% e deveremos ir para 3,7% (este ano) e o mercado projeta 4% para 2008. Agora, se não der, o BC não será sacrificado, pois terá a meta de 4,5% e não vai precisar puxar o gatilho (elevar os juros).