Título: Importação e crescimento
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 16/07/2007, Notas & Informações, p. A3
Se a demanda interna, que tradicionalmente estimula a produção industrial, está crescendo ao ritmo de 5,8% em 2007 - desempenho que se aproxima do observado nos principais países emergentes -, por que a indústria não se expande na mesma velocidade? Por que, aumentando num ritmo quatro vezes maior do que o registrado na primeira metade desta década e que não se observava desde 1994, a demanda não resulta em crescimento mais rápido do PIB?
Estas são as perguntas que um estudo da Confederação Nacional da Indústria procura responder. Para fazê-lo, analisa a evolução do consumo das famílias e do governo e os investimentos (que compõem a demanda interna) a partir de 2001, comparando-a com dados do Chile, China, Índia e Rússia. Compara também o desempenho da economia desses países nesta década.
Algumas de suas conclusões são positivas, como a de que os investimentos cresceram 8,7% em 2006 e, no primeiro semestre deste ano, aumentaram 7,2%, um ritmo muito superior à média da primeira metade da década, que foi de apenas 0,5% ao ano. É uma importante medida da disposição das empresas de ampliar ou modernizar seu parque produtivo, o que resultará em mais produção e mais eficiência.
Também a demanda interna mostra uma notável recuperação. Entre 2001 e 2005, seu crescimento médio anual foi de apenas 1,5%. Além de muito baixa em relação aos países utilizados como comparação (com exceção do Chile, em todos a demanda cresceu mais de 6,5% ao ano), essa média resulta de um conjunto de números muito dispersos. Em alguns anos, a expansão foi baixa ou houve queda; em outros, foi bastante alta. De 2006 para cá, o crescimento é forte e contínuo: no ano passado, o aumento foi de 5,1%; no primeiro semestre de 2007, de 5,8%.
Mas esse aumento não está tendo, sobre a produção, o impacto que sempre teve. A demanda sempre foi o grande propulsor da produção industrial e, nos períodos em que ela se expandiu mais depressa, a indústria liderou o crescimento do PIB. Houve uma mudança. No ano passado, embora a demanda interna tenha crescido 5,1%, o PIB industrial aumentou apenas 1,6%. Esse descompasso se repete em 2007: na comparação do primeiro trimestre com igual período de 2006, a produção da indústria de transformação aumentou 2,8%, enquanto a demanda cresceu 5,8%.
A conclusão do estudo é que as importações estão suprindo boa parte do aumento do consumo interno. As importações, estimuladas pela valorização do real, produzem efeitos diferentes. Setores como os de calçados, madeira, celulose e papel registram forte aumento de importações e queda na produção. Os de têxteis, químicos, vestuário e minerais não-metálicos apresentam baixo ritmo de crescimento e aumento exponencial das importações. O bloco dos setores de veículos automotores, móveis, máquinas, aparelhos e materiais elétricos, alimentos e bebidas e metalurgia básica está em melhor situação, pois consegue aumentar bem sua produção mesmo com o crescimento das importações.
A indústria enfrentou problemas difíceis por causa da valorização do real na fase inicial do Plano Real, mas sabia que aquele era um fenômeno passageiro, embora tivesse perdurado por um período longo. Desta vez, ela sabe que a desvantagem cambial pode ser mais duradoura. Muitas empresas vêm se adaptando à nova realidade, por meio de redução de custos e aumento de produtividade. Procuram, assim, compensar, ainda que parcialmente, a perda de competitividade decorrente da valorização do real, que encarece seus produtos em relação aos seus concorrentes estrangeiros.
Mas, para muitas empresas, nem isso será suficiente. Para estas, como, aliás, para todas as empresas brasileiras, é necessário reduzir os custos excessivos em que incorrem todos os que desenvolvem atividades produtivas no Brasil, por causa do excesso de burocracia, do ambiente ainda não inteiramente favorável aos investimentos, do peso da folha de pessoal e da carga tributária pesada demais. Esta é uma tarefa de cuja importância, lamentavelmente, o governo não parece ter se dado conta.