Título: As opções: ficam todos ou saem todos *
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Fonte: O Estado de São Paulo, 12/07/2007, Internacional, p. A16

Os democratas e um crescente número de republicanos estão decididos a não esperarem até setembro para que o presidente informe se a pressão sobre os insurgentes no Iraque está ou não funcionando. O povo americano já agüentou o bastante. Eles querem a saída dos soldados. A atitude do presidente Bush de manter o curso no Iraque está falida. Não mostra nenhum sinal de que produzirá um Iraque estável, auto-sustentável e - essa é a medida - unificado.

Mas as várias propostas de uma retirada gradual e parcial também não são realistas. É uma fantasia. No momento em que se iniciar uma retirada, a situação sairá totalmente de controle nas áreas abandonadas e não haverá barreiras que contenham a disputa pelo poder entre as facções iraquianas. A permanência lá com metade de tropas não será sustentável.

Um caso exemplar é o dos britânicos em Basra. As forças britânicas se retiraram aos poucos, deixando uma única base no aeroporto de Basra. E o que aconteceu? O vácuo foi preenchido por uma disputa selvagem pelo poder entre senhores da guerra xiitas, gangues e clãs, e soldados britânicos continuam sendo mortos sempre que se aventuram fora do aeroporto.

Não há como enganar-se. A verdadeira escolha no Iraque é sobre ficarem todos ou saírem todos. Se essas são as únicas opções de verdade, então será preciso analisar cada uma delas com clareza.

Permanecer significa simplesmente conter a guerra civil no Iraque, mas ao preço da continuidade das mortes de americanos e iraquianos e ao preço de os EUA não disporem de uma real influência sobre as partes dentro ou fora do Iraque para negociar uma solução.

Por outro lado, a retirada significa mais conflitos étnicos, religiosos e tribais por todo o Iraque. Será um dos cenários mais horríveis que se possa imaginar - não menos que o conflito de Darfur. O que veremos serão militares americanos se retirando e os civis e soldados iraquianos que apoiaram os EUA agarrando-se aos tanques das forças americanas em busca de proteção enquanto eles passam pelo portão. Seria preciso levar com os soldados americanos todos os que os ajudaram e conceder green cards (documento que permite trabalhar legalmente nos EUA) ao maior número possível de iraquianos.

Por isso, a determinação de uma data para a retirada deve ser acompanhada de um esforço diplomático de última instância liderado pela ONU - e não pelos EUA - para fazer com que as partes iraquianas resolvam suas diferenças políticas. Se conseguirem - mesmo que seja com um revólver apontado para a cabeça -, permanecer lá perderia o sentido.

* Thomas L. Friedman escreveu esse artigo para 'The New York Times'