Título: Lula cobra coerência de Paulson na defesa dos princípios liberais
Autor: Marin, Denise Chrispim
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/07/2007, Economia, p. B14

Presidente diz a secretário americano que oferta do país nas negociações de Doha é insuficiente

Crítico do protecionismo comercial, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, foi cobrado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a adoção de seus princípios liberais na posição americana na Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Em encontro no Palácio do Planalto, Lula afirmou que a oferta americana de redução do teto anual dos subsídios agrícolas para US$ 17 bilhões não é nenhuma concessão porque as somas liberadas são hoje bem menores e equivalentes à demanda do Brasil e seus aliados, de US$ 12 bilhões.

'Sabemos que os Estados Unidos podem dar até US$ 40 bilhões em subsídios. Não nos interessa a redução do teto dos subsídios a partir do que poderia ser, mas do que efetivamente ocorre', disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao relatar o encontro.

'O secretário Paulson é favorável ao aumento da concorrência internacional e da liberalização do comércio porque isso vai beneficiar também os EUA e não só os emergentes', acrescentou Mantega.

Segundo o ministro, Lula foi incisivo ao afirmar que o Brasil não desistiu de Doha. 'O presidente insistiu que o Brasil conta com os EUA para a conclusão da rodada'. Paulson, por sua vez, teria demonstrado 'toda a simpatia e interesse' em colocar o empenho americano para o sucesso das negociações.

Mas o fato é que Paulson não conduz as negociações na OMC. A área é dominada pela embaixadora Susan Schwab, que mantém contato freqüente com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que também participou do encontro com Paulson.

'Não podemos desistir. Perseverando, podemos atingir nossos objetivos', disse Mantega. 'Paulson não veio para uma negociação específica, apenas levou um recado do presidente Lula ao presidente (George W.) Bush para que ele continue nessa batalha, na qual têm vários pontos em comum.'

A resistência dos EUA a diminuir os subsídios agrícolas foi um dos principais motivos do fracasso em Postdam. Os EUA encastelaram-se na proposta de US$ 17 bilhões. A União Européia (UE) recuou na oferta de abertura de 75% do mercado agrícola. Mas ambos exigiram do Brasil e da Índia abertura mais ampla de setores industriais, o que foi negado.

O encontro com Paulson deu a chance para Lula cobrar também coerência dos EUA em relação às barreiras tarifárias à importação de etanol e biodiesel do Brasil. O governo Bush resiste em abrir o mercado aos combustíveis brasileiros.

FMI

O Brasil quer compor uma coalizão de países emergentes para influenciar na sucessão no Fundo Monetário Internacional (FMI) e reivindicar reformas que aumentem o peso desse grupo nas decisões do organismo. O grupo reuniria ainda China, Índia e África do Sul e se articularia para a escolha do sucessor de Rodrigo Rato no Fundo. A posição foi apresentada pelo presidente Lula a Paulson.

Mantega disse que a mesma pressão dos emergentes se voltará para o Banco Mundial, cujo presidente, o americano Robert Zoellick, já teria se comprometido com reformas na instituição. A reivindicação teria o apoio do primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, que 'levantou a bola para o Brasil' em recente conversa por telefone com Lula. Ontem, Paulson teria respondido com 'simpatia' à reivindicação, mas não se comprometeu a interferir.

Segundo Mantega, a pressão não significa, necessariamente, a indicação de um candidato à sucessão de Rato, em outubro. O Brasil só vai apoiar o candidato apresentado pela UE, o francês Dominique Strauss-Kahn, se ele se comprometer com reformas na instituição. Para Mantega, o Fundo corre sério risco de 'irrelevância' se não adotar as reformas.