Título: Argentina reduz envio de gás ao Chile
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 11/07/2007, Economia, p. B4
Governo Kirchner corta fornecimento diário a 1,2 milhão de metros cúbicos, ante 22 milhões previstos em contrato
O Chile transformou-se em vítima paralela da crise energética argentina, uma vez que o governo do presidente Néstor Kirchner optou por reduzir drasticamente o envio de gás para o outro lado da Cordilheira dos Andes. O objetivo é evitar a intensificação do racionamento para as indústrias na Argentina.
Há meses os chilenos não recebem os 22 milhões de metros cúbicos diários de gás que os contratos assinados nos anos 90 estipulam e que abastecem grande parte de suas indústrias e termoelétricas. Em maio, o fornecimento já era exíguo, de apenas 1,5 milhão de metros cúbicos, utilizados para o consumo residencial da área da Grande Santiago, o principal centro urbano chileno. Mas, nos últimos três dias, os envios de gás encolheram mais ainda, chegando a somente 1,2 milhão de metros cúbicos.
O problema é que a demanda residencial e comercial em Santiago é de 1,5 milhão a 2 milhões de metros cúbicos diários. O governo da presidente Michelle Bachelet, mais uma vez, deu o sinal de alerta, e pediu a seus compatriotas que consumam menos energia com a campanha 'Use bem a energia, siga a corrente.' O governo pretende instalar na população o conceito do uso 'eficiente' da eletricidade e do gás.
Metade da energia elétrica chilena é gerada em termoelétricas que dependem do gás argentino. Para complicar, a seca está colocando em dificuldades duas das principais hidrelétricas chilenas, as de Pangue e Ralco. Ambas respondem por 15% do sistema interconectado da região central do Chile.
Por causa de Kirchner, Bachelet teve de implementar o plano de emergência, que inclui o uso de reservas de 8 milhões de metros cúbicos acumulados nos tubos dos gasodutos. Há uma semana e meia, durante a Cúpula do Mercosul, Bachelet havia pedido a Kirchner que normalizasse os envios de gás - mas ele não deu resposta.
A escassez de gás proveniente da Argentina está desatando uma saraivada de críticas contra Bachelet por parte das lideranças da oposição, que pedem que a presidente seja 'firme' com Kirchner. A escassez de gás argentino também provoca uma alta do custo da energia elétrica, já que as termoelétricas tiveram de optar pela utilização do diesel (mais caro que o gás). As contas de energia elétrica aumentariam, em média, 5%.
Enquanto isso, em Buenos Aires, pela primeira vez, o chefe do gabinete de ministros, Alberto Fernández, sustentou que 'todos devem ser cuidadosos com o consumo de energia'. Segundo ele, diante da onda de frio que assola o país, o governo decidiu 'privilegiar as residências'. 'Pedimos que as indústrias esperem um pouco.'
Fernández deixou claro que, apesar da crise, o governo não cogita um eventual fim do congelamento das tarifas de energia, em vigência desde 2002. O congelamento é a principal queda-de-braço entre o governo e as empresas privatizadas de energia. Elas argumentam que, enquanto o congelamento durar, não vale a pena investir na Argentina. Dessa forma, o país não conta com uma ampliação da exploração de gás e aumento da capacidade de transmissão de energia elétrica há mais de meia década.