Título: Rádio de Argello é operada por grupo italiano
Autor: Nossa, Leonencio e Filgueiras, Sônia
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/07/2007, Nacional, p. A10

Suplente de Roriz pode ter burlado Constituição, que veda transferência de emissora a estrangeiros

Os negócios do futuro senador Gim Argello (PTB-DF) vão além da corretagem de lotes em áreas públicas da capital federal. Documentos obtidos pelo Estado indicam que o suplente do ex-senador Joaquim Roriz (PMDB-DF) transferiu o controle de uma rádio em Taguatinga para um grupo estrangeiro, o que burla o artigo 222 da Constituição.

De acordo com os registros da Agência Nacional de Telecomunicações e do Ministério das Comunicações, a freqüência 94,5 FM em Brasília está em nome da Fundação Calmerinda Lanzillotti, avó da ex-mulher de Argello. Quem sintoniza a rádio, no entanto, sabe que a emissora é operada pela organização religiosa Rádio Maria, um grupo italiano que constituiu uma fundação em nome de brasileiros.

A transferência da rádio, em 2004, começa a ser investigada. No papel, houve a troca de diretoria - o que é permitido pela lei. Na prática, outra fundação, que não é titular da outorga, explora a concessão. O padre Reinaldo Pinheiro, diretor da Rádio Maria na cidade-satélite de Taguatinga, nega que a entidade tenha feito negócio com Argello - com ou sem dinheiro - e alega que quem vai tirar as dúvidas é o Ministério Público. 'A rádio é monitorada pelo Ministério Público', explicou.

Por meio da assessoria, Argello diz que transferiu, sim, a concessão para a Rádio Maria. 'Houve uma transferência sem ônus. A rádio não tinha interesse comercial, pois era educativa', informou um de seus assessores, acrescentando que, por isso, ele 'perdeu o interesse pela concessão'.

O Ministério Público do Distrito Federal, que faz a curadoria das fundações, informou que a Fundação Calmerinda Lanzillotti, originalmente dirigida por pessoas ligadas ao futuro senador, registrou em 2005 uma parceria com a Fundação Rádio Maria para que ela pudesse utilizar parte da programação, também sem ônus - a parceria foi aprovada. O site da Rádio Maria, porém, informa que a entidade controla 24 horas da programação.

A Rádio Maria é uma entidade italiana que montou, nos últimos anos, rádios em 48 países. Em busca de uma concessão de rádio no Brasil, o grupo procurou em 2002 a Cúria Metropolitana de Brasília para interceder junto a autoridades brasileiras e levar o projeto adiante. A arquidiocese da capital deixou claro, no entanto, que já tinha uma rádio.

Depois de percorrer os corredores do Senado, da Câmara e do Planalto, o grupo 'firmou convênio com outra fundação detentora de concessão' - a fundação de Argello, que, em 2002, ganhou a concessão.

No mesmo período, a ex-mulher de Argello, Márcia Cristina Varandas, adquiriu uma mansão na Península dos Ministros, uma das áreas mais valorizadas do Lago Sul, por R$ 950 mil. Esse é o valor escriturado, mas no mercado a avaliação é de que a casa custou R$ 2,2 milhões. Márcia, no entanto, sustenta que o imóvel foi comprado pelo valor da escritura mesmo, pago com dinheiro do próprio bolso e a permuta de outro imóvel.

REI DAS RÁDIOS

O caso da Rádio Maria não é o único envolvendo o nome de Argello nos negócios das concessões. O suplente de senador é conhecido nos bastidores da Câmara Distrital de Brasília, onde ocupou cadeira de deputado por oito anos, como o rei das rádios da periferia. Só na gestão de Hélio Costa no Ministério das Comunicações, Argello atuou para legalizar cinco rádios comunitárias.

Argello é sócio igualitário, com o equivalente a 50%, da Rádio Global Comunicação Ltda., com Paulo Cezar Naya, no município mineiro de Formiga, de acordo com registro do Ministério das Comunicações.

Foi com um representante da família Naya, o ex-deputado Sérgio Naya, construtor do edifício Palace 2, que desmoronou no Rio em 1998, que Argello começou a carreira de corretor de imóveis no Distrito Federal e aprendeu o ofício.

Ele conseguiu se eleger duas vezes deputado distrital e apresentou 278 projetos para alterar o uso de áreas da cidade. O suplente de Roriz é um dos citados no relatório final da CPI dos Condomínios, que investigou em 2002 o pagamento de propinas a deputados em troca de legalização de lotes residenciais irregulares no Distrito Federal.