Título: Militares temiam ação com Uruguai e Paraguai
Autor: Moraes, Marcelo de
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/07/2007, Nacional, p. A12

Estrategistas avaliavam cenários de ataque argentino com outros países

Os documentos de 1987 mostram que os militares admitiam que Paraguai ou Uruguai ficassem ao lado da Argentina, considerada o principal inimigo provável no caso de guerra. O Estado teve acesso ao material produzido pelo Estado-Maior do Exército (EME) e formado por um bloco de três documentos: Concepção Governamental de Segurança, Concepção Estratégica Nacional e o estudo Cenários 2000. Os documentos fazem parte de um lote de papéis militares que tratam de estratégia de governo e projeções de cenários.

O documento Concepção Governamental de Segurança, classificado pelo Conselho de Segurança Nacional como secreto, estuda hipóteses de guerra às quais o Brasil poderia ser submetido, baseado nas informações e estudos que os militares tinham em 1987. Os estrategistas do EME batizaram como Hipótese de Guerra Beta (HG Beta) eventual conflito na América do Sul. Nessa simulação, o principal inimigo provável apontado é a Argentina, 'seja na forma isolada ou envolvendo Paraguai e Uruguai'.

Embora o documento mostre que os militares brasileiros não descartavam Bolívia, Colômbia, Peru e Venezuela como eventuais inimigos capazes de declarar guerra, o alvo central do estudo é mesmo o hipotético conflito com a Argentina. O grau dessa ameaça é estimado como 'de médio a grave'.

Os brasileiros admitiam que poderiam sofrer 'ações ofensivas aéreas, navais (inclusive aeronavais) ou através de mísseis'. Cogitavam ainda a hipótese de invasão territorial e uso de armas nucleares contra o Brasil. 'Envolvida por pressões incontornáveis, a Argentina poderá, como medida extrema, empregar armas nucleares de baixa potência.'

O documento também admite a possibilidade de dois outros tipos de guerras. A Hipótese de Guerra Alfa (HG Alfa) representa claro resquício dos tempos de repressão aos grupos de esquerda. A Guerra Alfa trata da 'hipótese de guerra baseada na possibilidade de eclosão de conflitos armados, no território nacional, identificados com o comunismo internacional'. Os militares acreditavam ser possível algum tipo de movimento armado 'de inspiração comunista' que poderia tentar estabelecer, 'por meio de terrorismo e a guerrilha, uma ou mais áreas ou zonas liberadas dentro do território nacional'. Algo como um enclave no País. Outra hipótese é que essas zonas poderiam ser instaladas em alguma fronteira, que poderia resultar na perda de território nacional.

A terceira possibilidade estudada, Hipótese de Guerra Gama (HG Gama), previa a eclosão de uma terceira guerra mundial. Representaria o 'conflito armado entre o bloco comunista e o bloco democrático, em que o Brasil seja co-participante ao lado das nações democráticas'. O militares reconheciam que o Brasil tinha grande vulnerabilidade em um conflito desse porte.