Título: Indústria já se adapta ao 'novo' brasileiro
Autor: Chiara, Márcia De
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/07/2007, Economia, p. B17

Ele come mais fora de casa, gasta mais com saúde e educação e utiliza menos transporte coletivo

Os hábitos de consumo do brasileiro mudaram e as empresas não deixaram por menos: já se adaptaram à nova realidade. Ele come mais fora de casa, usa com maior freqüência o transporte individual, adquire mais bens duráveis e gasta mais com educação e saúde.

Queda da inflação, aumento da participação da mulher no mercado de trabalho, crédito facilitado e mudança de preços relativos da economia, com aumento dos serviços e recuo dos alimentos, bens duráveis e semiduráveis, explicam as mudanças.

É o que mostra uma radiografia feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) a partir da Pesquisas de Orçamento Familiar (POF) de 1988 e de 2003, apresentada no livro Gasto e Consumo das Famílias Brasileiras Contemporâneas. Em 1988, por exemplo, as famílias gastavam 26,6% do orçamento com alimentação fora de casa. Quinze anos depois, em 2003, essa fatia tinha aumentado para 30%. Nesse mesmo período, houve uma queda de 19,5% para 16,3% da alimentação como um todo nas despesas das famílias.

Um dado que confirma essa mudança de hábito é o desempenho da indústria de serviços de alimentação, que produz insumos para restaurantes e lanchonetes, entre outros. Esse foi o segmento que mais se destacou no setor alimentício, com crescimento de 203,5% nos últimos dez anos, enquanto o varejo de alimentos cresceu 95,2%, segundo estudo da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia). Só em 2006, o mercado de serviços de alimentação cresceu 12,3%, equivalente a cinco vezes o acréscimo registrado no varejo de alimentos para consumo no domicílio.

A maior preocupação em ganhar tempo reduziu o consumo doméstico de alimentos que demoram para serem preparados e aumentou a demanda da comida pronta para consumo. Entre 1988 e 2003, caiu 42,4% o consumo per capita de arroz dentro dos lares e 23,9% o de feijão. No mesmo período, cresceu 307,6% o consumo per capita de alimentos preparados no domicílio; 192,3% o de refrigerantes e 163,6% o de iogurte.

¿Na próxima POF, que começa ser feita em outubro, essa tendência deve se acentuar¿, observa o pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e consultor do Ipea para esse projeto, Bernardo Campolina. Ele argumenta que a maior participação da mulher no mercado de trabalho contribuiu para isso. De acordo com a última POF, 54% das mulheres cônjuges ou chefes de família trabalham fora.

O maior gasto com o transporte individual entre as camadas de menor renda é o outro ponto de destaque do estudo do Ipea. Os 10% das famílias mais pobres, que empenhavam 1,21% do orçamento com a manutenção do veículo próprio em 1988, passaram a gastar 2,55% em 2003. No sentido inverso, os 10% das famílias mais ricas diminuíram de 9% para 7,4% o desembolso no período.

¿Há 15 anos, era muito difícil comprar um carro novo¿, observa Campolina. Mas a abertura do mercado para os produtos importados forçou a queda nos preços. Além disso, com a estabilização da moeda, o crédito de longo prazo deixou a compra do veículo mais compatível com o orçamento. Hoje é possível adquirir um carro novo em até 72 meses.

Esse movimento ganha contornos mais nítidos quando se avalia o desempenho da indústria automobilística. O mercado interno deve absorver neste ano 2,35 milhões de carros, segundo as novas projeções da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

As facilidades para comprar um veículo se repetem para outros bens duráveis, como geladeiras, fogões e máquinas de lavar, por exemplo. Esse fator, aliado à queda nos preços, impulsionou a aquisição de bens duráveis, especialmente entre as camadas mais pobres. Em 1988, 20% das famílias mais pobres gastavam 2,4% do orçamento com duráveis. Em 2003, esse desembolso subiu para 2,9%. Entre os 10% mais ricos, o gasto com duráveis caiu de 2,3% do orçamento em 1988 para 1,6% em 2003.

Campolina observa que, no caso dos imóveis, o desembolso dos 10% mais ricos se manteve no período. Segundo o economista, isso indica um grande potencial de mercado para o setor, tanto entre os mais pobres quanto entre os mais abastados.

SAÚDE

Enquanto os indicadores de aumento de gastos com a compra de bens sinalizam uma melhoria de bem-estar, essa interpretação pode não ser válida no caso da saúde e da educação.

As famílias, em geral, empenhavam 10% do orçamento com saúde e educação em 1988. Em 2003, essa fatia aumentou para 13,3%. Apenas os 10% mais pobres gastaram ligeiramente menos com esses serviços no período, de 8,4% para 8,3%. Houve ampliação de gastos para todas as camadas de renda nessas duas despesas. ¿A estabilização e as dificuldades do governo em garantir serviços de saúde e educação provocaram mudanças nos padrões de gastos das famílias.¿

De outro lado, entidades ligadas às escolas e aos planos de saúde atribuem o aumento dos gastos das famílias à majoração dos preços desses serviços. ¿Não tem aumentado o número de usuários dos planos médicos¿, afirma o presidente da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge), Arlindo de Almeida. Hoje o setor tem 36 milhões de usuários nos planos médicos.

Segundo Almeida, o crescimento das despesas do consumidor ocorreu por causa dos reajustes que, nos últimos três anos, superaram a inflação. ¿Os custos aumentaram por conta da evolução tecnológica, novos medicamentos e envelhecimento da população¿, diz.

A história se repete nas escolas particulares. ¿Tivemos aumentos das mensalidades escolares superiores à inflação nos últimos anos¿, diz o diretor-executivo do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo (Sieeesp), Roberto Prado.