Título: Lula descarta medidas cambiais 'intempestivas'
Autor: Oliveira, Ribamar
Fonte: O Estado de São Paulo, 18/07/2007, Economia, p. B6

Recado foi dado aos empresários e membros do governo durante a Reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu um recado claro ontem a todos que defendem a adoção rápida pelo governo de medidas de controle de capital, taxação de recursos externos especulativos e outras que possam impedir a forte valorização do real. 'Não peçam para fazer nenhuma medida intempestiva', disse Lula, durante a 22ª Reunião Ordinária do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).

O recado do presidente foi para os empresários e para dentro do próprio governo. Alguns representantes do chamado grupo desenvolvimentista estão defendendo, nas reuniões técnicas e políticas do governo, o uso de um freio para conter a valorização do real. A equipe do ministro da Fazenda, Guido Mantega, discutiu e chegou a preparar algumas alternativas que foram, de acordo com fonte ouvida ontem, rejeitadas por Lula. 'O presidente não quer essas medidas, pois acha que elas podem atrapalhar o bom momento da economia', observou a fonte.

Na reunião do CDES, Lula disse ter sido informado por Mantega sobre a entrada de capital de US$ 45 bilhões apenas no primeiro semestre deste ano. Na verdade, o fluxo cambial total foi positivo em US$ 51,6 bilhões, sendo US$ 45,9 bilhões pelo câmbio comercial e US$ 5,7 bilhões pelo câmbio financeiro, que envolve investimentos e aplicações no mercado financeiro. 'Eu lembro do dia em que entravam US$ 18 bilhões e se comemorava. Agora, entram US$ 45 bilhões e nós estamos achando ruim', afirmou.

'É por isso que o câmbio tem dificuldades de se manter na taxa em que todo mundo gostaria, os exportadores (gostariam).' E concluiu: 'Com essa entrada de dólares, o Banco Central pode comprar, e nós vamos ter que aguardar, com muita paciência, que o dólar se acomode', acrescentou.

O presidente chegou a dizer que os assessores da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) devem 'começar a estudar', pois eles, segundo Lula, muitas vezes falam da valorização do real e não da desvalorização do dólar frente a quase todas as moedas do mundo. O presidente disse também que as análises feitas por esses assessores pegam o pico da desvalorização do real, ocorrida no início do seu governo, quando deveriam, segundo ele, observar a cotação média.

Para Lula, o Brasil encontrou o seu caminho. 'Agora é só a gente não fazer bobagem. Se não tiver nenhuma bobagem, todos nós iremos usufruir deste País que construímos.'

Após a reunião do CDES, o ministro Mantega interpretou as palavras de Lula. 'O que ele quis dizer é que o governo não vai cometer nenhum artificialismo nesta questão do câmbio', afirmou. 'O governo não vai lutar contra a corrente, não vai fazer nenhuma besteira.'

O ministro garantiu que o governo não adotará medidas que possam colocar a perder o que o País já conquistou. 'Nós temos que aceitar que há uma enxurrada de dólares na economia brasileira. Uma parte desses recursos vai para os investimentos, para a Bolsa, que não são aplicações especulativas', argumentou. 'Isso acaba provocando uma valorização cambial, mas não nos causará um nervosismo para adotar medidas precipitadas, que alguns sugerem por aí, que podem não dar certo'. Ele disse que Colômbia e Tailândia adotaram medidas para conter a valorização de suas moedas e o resultado 'não foi positivo'.

Um dos argumentos que sensibilizaram o presidente Lula é que a adoção de medidas de controle da entrada de capital estrangeiro poderá, na melhor das hipóteses, evitar uma maior valorização do real, mas não será capaz de reverter 'o estrago' já ocorrido, ou seja, fazer com que a cotação do dólar retorne a patamares acima de R$ 2. Há um grande temor de que a adoção dessas medidas provoque uma grande turbulência no mercado, que termine por impedir que o Banco Central continue em sua trajetória de redução da taxa de juros.