Título: Entre os mortos, ex-dirigente do Inter, deputado e criança abraçada à mãe
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Fonte: O Estado de São Paulo, 18/07/2007, Metrópole, p. C5

Tucano Julio Cesar Redecker era líder da minoria na Câmara; mulher estava em posto de gasolina

O deputado federal Júlio César Redecker, do PSDB do Rio Grande do Sul e líder da minoria na Câmara Federal, estava no vôo 3054 da TAM, segundo o chefe de gabinete do parlamentar, Mauro Borges. De acordo com assessores do parlamentar na capital gaúcha, o motorista de Redecker o havia deixado no aeroporto de Porto Alegre por volta das 16 horas. Em São Paulo, ele embarcaria para os Estados Unidos com o presidente da Câmara, o petista Arlindo Chinaglia. A viagem foi cancelada por Chinaglia. O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio, lamentou o acidente, em nota.

O filho do ex-presidente do Internacional Paulo Rogério Amoretty confirmou às 22h10 que o pai deveria estar no vôo e a família ainda não tinha notícias. A Vinícola Aurora confirmou às 21h50 de ontem que dois funcionários estavam no vôo: Caio Zanotto, diretor superintendente, e Ivalino Bonatto, gerente financeiro.

Fontes do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) que ajudaram no resgate de vítimas disseram, por volta das 22 horas, que foram encontrados os corpos de uma mãe e uma criança carbonizados dentro de um carro que estava no posto atingido pelo avião. As duas morreram abraçadas, segundo os policiais.

No avião, estava também uma advogada de 32 anos, grávida de quatro meses. Ela e duas colegas do escritório Edson Freitas Siqueira, de Porto Alegre, vinham para um evento na capital. O funcionário do mesmo escritório, que aguardava as três no aeroporto, disse que não podia divulgar o nome das passageiras. Márcio Papa, sogro de um dos passageiros, o empresário Pedro Caltabiano, aguardava informações no saguão, mas disse que estava recebendo apoio da empresa. O irmão de Pedro, João Caltabiano, também estava no vôo.

O taxista Lamir Buzzanelli, de 67 anos, trouxe de Penápolis, no interior do Estado, o filho Claudemir, de 41 anos, que foi a trabalho a Porto Alegre.¿Meu filho me ligou às 16h5, pedindo para eu esperá-lo às 18h40 aqui¿, contou. Lamir estacionou a cem metros do acidente. ¿Estava esperando e ouvi a pancada. Quando olhei para trás, já vi o fogo.¿ Ele tinha poucas esperanças de que o filho estivesse vivo. ¿Estou ligando direto para ele, mas só dá caixa postal.¿ Claudemir tinha dois filhos. ¿ Acho que estou resistindo até demais¿, disse Lamir.

Às 22h10, chegavam os primeiros carros com corpos ao Instituto Médico-Legal (IML), que colocaria 15 peritos a mais para trabalhar na madrugada. Segundo Celso Perioli, superintendente de Polícia Científica, será feito esquema semelhante ao usado no acidente com o Fokker 100 da TAM para identificar os mortos, com exames de DNA e de arcada dentária.

Pelo menos 16 pessoas foram levadas para hospitais de capital até às 21h30 de ontem, segundo o Corpo de Bombeiros. Uma mulher morreu no Hospital Dante Pazzanese, na zona sul. Sete vítimas, funcionários da TAM Express, foram atendidas no Hospital Jabaquara, na zona sul. Quatro delas estavam em estado grave às 21h30.

Até as 21h40, três homens que estavam no hangar da TAM haviam sido levados para o Hospital São Paulo, também na zona sul. Fabrício Nicoletti, de 25 anos, foi internado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) com comprometimento nos pulmões, por ter inalado muita fumaça.

Fabrício é filho de Sérgio Nicoletti, professor do setor de ortopedia da Unifesp. O médico estava em casa quando viu o acidente e imediatamente foi para o hospital São Paulo para ajudar no atendimento. Lá, descobriu que o filho havia dado entrada na UTI. Fabrício trabalha no setor de logística da TAM.

Os irmãos Romualdo de Souza Feitosa, de 45 anos, e Paulo César de Souza Feitosa, de 39, também foram atendidos no hospital. Com fortes dores do tórax, Romualdo estava em observação. Paulo César, que teve queimaduras no couro cabeludo, sem muita gravidade, estava muito nervoso, sem notícias do irmão Oswaldo, de 50 anos.

No Hospital Alvorada, também na zona sul, três pessoas que trabalhavam no hangar da TAM receberam socorros. Lilian Souza, de 22 anos, Eduardo Silva Teixeira, de 35, e Paulo Roberto Zani, de 39. Um sobrinho de Paulo disse que o tio quebrou a janela do prédio para escapar.

No Hospital Santa Paula, uma funcionária da TAM que se jogou do segundo andar do hangar foi internada com ferimento na perna. O Hospital Vergueiro recebeu outra vítima.

Uma multidão se aglomerava na frente do portão norte, que dá acesso a uma área restrita da Infraero no aeroporto. Era lá que amigos e parentes esperavam por alguma informação sobre os passageiros do vôo da TAM. Algumas pessoas chegaram consternadas ao local e, após se identificar para policiais federais que fechavam o acesso, entraram rapidamente na sala. Ao lado do portão, a promotora de vendas Juliana Oliveira, de 26 anos, queria saber se algum de seus amigos comissários de bordo da TAM estavam no Airbus. ¿Ninguém esclarece nada.¿ Apesar de a TAM ter dito que já havia montado um gabinete de crise após o acidente, até as 21 horas não havia funcionário da empresa para dar informações aos parentes.

O motorista da TAM, Reinaldo José de Assunção, de 37 anos, estava no subsolo do hangar da empresa quando ouviu um forte estrondo. Saiu correndo e viu uma escada de concreto desabando. Conseguiu subir ao primeiro andar por uma outra escada e deu de cara com o amigo Bira, funcionário administrativo do hangar, com o rosto ferido. Reinaldo ajudou a resgatá-lo e diz que só viu a fuselagem do avião em chamas.

O Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas, interior do Estado de São Paulo, recebeu sete vôos alternados, que deveriam chegar a Congonhas ontem à noite e foram desviados por causa do acidente. Não houve tumulto.