Título: Brasil não consegue apoio do G-20
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/07/2007, Economia, p. B4

Argentina propõe que países do grupo dêem aval por escrito à decisão brasileira em Potsdam, mas desiste da idéia

Os países do G-20 (grupo que reúne as economias emergentes) não conseguem chegar a um acordo para dar apoio por escrito ao Brasil pela atitude do Itamaraty nas negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) e, principalmente, diante de sua decisão de não aceitar as propostas feitas por Estados Unidos e Europa, duas semanas atrás, na conferência de Potsdam, na Alemanha.

Na semana passada, o governo argentino tentou mostrar solidariedade ao Brasil e enviou uma carta aos demais membros do G-20 sugerindo que uma declaração fosse assinada por todos, mostrando uma espécie de reconhecimento pelo trabalho de Brasília nas negociações. O governo brasileiro avaliou a iniciativa argentina como 'positiva'.

Mas alguns dias depois, os argentinos foram obrigados a desistir da idéia. Mandaram uma nova carta a todas as delegações dos países emergentes explicando que a iniciativa estava sendo abandonada diante dos comentários recebidos contra a proposta. Na prática, alguns governos do bloco estimaram que não seria o momento de assinar uma declaração a favor do Brasil ou do processo ocorrido em Potsdam, que apenas incluía americanos, europeus, indianos e brasileiros.

Buenos Aires tomou a iniciativa por ser um dos países que mais pressionaram o Brasil para que um acordo não significasse a abertura das economias em desenvolvimento para os produtos industriais, sem que os mercados agrícolas fossem liberalizados em uma dimensão considerada como adequada.

Para diplomatas de países que fazem parte do bloco, a dificuldade do G-20 em tomar uma decisão de assinar uma declaração a favor do Brasil é uma demonstração das dúvidas que muitos governos têm em relação a qual seria a melhor estratégia.

Em Potsdam, o chanceler Celso Amorim deixou claro que não poderia seguir negociando um acordo que representasse uma ' traição' em relação aos demais países do G-20.

Mas esse não é o primeiro sinal de dificuldade encontrado pelo Brasil entre os países emergentes. Após o colapso de Potsdam, um grupo de oito países em desenvolvimento apresentou uma proposta de cortes de tarifas de importação de bens industriais que vão além do que o Brasil afirmou estar preparado para aceitar. Alguns dias depois, Amorim ligou para o governo chileno, que organizava a iniciativa, para entender o motivo da proposta.

Em Potsdam, Brasil e Índia se recusaram a aceitar a proposta de Estados Unidos e Europa de exigir cortes de 58% nas tarifas de bens industriais nos países emergentes. Brasília e Nova Délhi argumentaram que o corte não era proporcional ao que os países ricos ofereceram no setor agrícola. O problema é que o colapso de Potsdam coloca em questão a própria conclusão da Rodada da OMC neste ano, o que não agradou a muitos países.

Hoje, o G-20 reúne-se em Genebra para debater uma estratégia para as próximas semanas. Na sexta-feira, a OMC deve apresentar sua versão do que acredita ser a proposta final para a abertura dos mercados agrícolas e de bens industriais.