Título: Reverso pinado, só com aval da Airbus
Autor: Tavares, Bruno e Leal, Luciana Nunes
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/08/2007, Metrópole, p. C6

TAM confirmou que não permite mais vôos com o aparelho travado.

Depois do acidente do Airbus A320, a TAM mudou o procedimento para vôos com reverso (sistema de freio aerodinâmico localizado nas turbinas) travado. Como antecipou o Estado, os aviões que tiverem defeito no reverso não serão mais autorizados a voar, a não ser com aval da fabricante. A decisão foi tomada esta semana, em reunião informal entre representantes da TAM e do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa).

Antes do acidente, em caso de defeito, o reverso era travado (pinado, no jargão do setor) e os aviões podiam operar por até dez dias. Só então a empresa deveria providenciar o conserto. Segundo o presidente da TAM, Marco Antônio Bologna, em depoimento à CPI do Apagão Aéreo da Câmara, a medida foi tomada por precaução, enquanto durarem as investigações da tragédia com o vôo 3054.

Dois dias após o acidente, Bologna alegou que o reverso estava travado seguindo orientação do manual da fabricante Airbus. Nos dias que se seguiram, executivos da empresa afirmavam que não houve alterações nos procedimentos. A TAM hesitou em admitir a mudança por temer se indispor com a Airbus, segundo fontes do setor aéreo ouvidas pelo Estado.

Bologna afirmou ainda que se o grooving (ranhuras) da pista do Aeroporto de Congonhas já tivesse sido feito seria mais fácil aterrissar.

O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) perguntou como a TAM agiria, daqui para a frente, no caso de um avião apresentar defeito no reverso. Bologna respondeu: 'Se for o caso, não voará.' Depois, esclareceu que a decisão dependeria de uma 'consulta ao fabricante'.

Ele informou que hoje nenhuma aeronave da TAM voa com reverso pinado e já antes do acidente o porcentual de aviões com o problema era baixo. O vice-presidente técnico da TAM, Ruy Amparo, disse que, no caso de defeito no reverso, 'neste momento, a orientação à manutenção é consultar o fabricante e tomar a posição correta'.

À CPI, Bologna e Amparo, reconheceram que a TAM não segue todas as recomendações da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para pousos em pista molhada e os pilotos usam um manual com regras da agência reguladora e do fabricante. 'Não é a recomendação que vai para dentro de bordo. Dentro de bordo o manual é a bíblia', disse Bologna.

Os deputados referiam-se ao Regimento Brasileiro de Homologação Aeronáutica 121-189, de 31 de janeiro, que fixa regras para pouso em pista molhada. Uma é: 'Após o toque (em solo), confirmar a abertura dos ground spoilers (mecanismos de freio na extremidade das asas) e usar o máximo reverso assim que possível.' Apenas o reverso esquerdo estava funcionando no Airbus da TAM. O direito, com defeito, estava travado.

O presidente da TAM informou que a empresa tem seguro de US$ 1,5 bilhão, que será usado em boa parte para indenizar as famílias das vítimas.

O presidente da Anac, Milton Zuanazzi, em depoimento à CPI do Senado, repetiu o argumento de Bologna de que a recomendação pode não ser cumprida pelas empresas, desde que a segurança dos vôos seja garantida.