Título: Líder francês acaba com marasmo da diplomacia
Autor: Lapouge, Gilles
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/07/2007, Internacional, p. A20
O novo presidente da França, Nicolas Sarkozy, fez uma entrada retumbante no teatro da diplomacia. Sua fome de ação é assombrosa. Segurando com mão imperial as rédeas da política interna, a ponto de as pessoas se perguntarem por que ele insistiu em nomear um primeiro-ministro e os demais ministros se faz tudo sozinho, ele se engajou pessoalmente nos mais perigosos dossiês internacionais.
Durante o mês de junho, ele esteve por toda parte. Em Paris, Berlim, Bruxelas... O Palácio do Eliseu assistiu a um desfile de excelências vindas de todos os continentes para conversar com o fenômeno. Na reunião do G-8 na Alemanha, sua autoconfiança e sua energia deixaram estupefatos, sem voz, seus parceiros. Entre os oito grandes, ele era o ¿pequeno último¿. Um outro ficaria quieto em seu canto. Sarkozy não! Sempre no ataque.
Mal assumiu o cargo, ele agarrou à unha a questão de Ingrid Betancourt, há quatro anos refém da guerrilha colombiana. É fato que ele não obteve a libertação de Ingrid, mas abriu caminho, sacudiu os sonolentos, tanto do lado do governo de Bogotá como da guerrilha. Depois, na cúpula européia em Bruxelas, ele deu mostras da mesma energia. Em Bruxelas, para evitar uma pane da Europa, ele soube afagar Tony Blair e, sobretudo, os dois bizarros gêmeos poloneses. É claro que a alemã Angela Merkel mostrou sutileza e autoridade. Mas o fato é este: os dois, Sarkozy e Merkel, salvaram a Europa de um colapso constitucional que a teria estrangulado.
Qual a inspiração que anima todas essas ações? Ele próprio diz: ¿Não sou um teórico. Não sou um ideólogo. Ah, não sou um intelectual!¿ Seu único critério é aquilo que funciona. O homem é pragmático. Tem convicções, mas obedece, sobretudo, ao princípio da realidade, o que lhe dá uma flexibilidade imprevisível.
Um exemplo: há um ano, quando a França era a líder do antiamericanismo no Ocidente (com Jacques Chirac), Sarkozy, então ministro do Interior, foi encontrar-se com Bush em Washington. Isso bastaria para catalogá-lo no clã dos ¿neoconservadores¿. Mas a coisa é mais complicada do que isso. É verdade que ele pôs fim à minúscula ¿guerrilha¿ que Paris travava contra Washington, mas conservou sua liberdade de palavra e de decisão. Aliado dos americanos, mas aliado independente e, em certos casos, incômodo: está fora de questão engajar-se no Iraque. E será que os soldados franceses ainda ficarão por muito tempo no Afeganistão?
O resultado é que Washington leva Paris mais a sério. Um exemplo: Sarkozy, convencido por seu chanceler, o socialista Bernard Kouchner (criador da organização Médicos sem Fronteiras), de que se devia fazer alguma coisa sobre Darfur (no Sudão), conseguiu sacudir a inércia mundial e organizou em Paris, em tempo recorde, uma conferência da qual participaram, entre outros, a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, e uma figura de alto escalão do governo chinês.
O perigo de tanto ativismo é o de ir depressa demais, derrapar numa curva e sair da estrada. É por isso que o frenesi de Sarkozy causa vertigens. Mas é preciso reconhecer que até agora ele não pisou na bola. Ele tem sabido até modificar seus planos quando surgem obstáculos muito duros, como no caso de Kosovo. A ONU e o Ocidente queriam andar depressa e proclamar a independência dessa província sérvia massacrada pela recente guerra civil. Ora, a Rússia ficou do lado dos sérvios. Sarkozy então mudou seu fuzil de ombro e conseguiu de seus amigos ocidentais que a questão fosse adiada por seis meses. Até lá se tentará amolecer Putin, do qual Sarkozy fez um retrato indulgente, em nome do pragmatismo: ¿Putin é um homem inteligente, aberto ao diálogo.¿ Será?
Muitos temiam que, por precipitar-se sobre todos os problemas com um apetite voraz, Sarkozy quebrasse as delicadas engrenagens do mundo. Nada disso. Sua audácia, seu incrível atrevimento, somados a seu charme e eloqüência, tiveram um efeito positivo. Um de seus antecessores, François Mitterrand, tinha uma fórmula. ¿É preciso dar tempo ao tempo¿, ele dizia. Sarkozy faz o oposto. Ele não perde um minuto. Às vezes, quando o tempo é pressionado demais, ele se vinga. Veremos.