Título: 'Quem fala em crise quer tumultuar'
Autor: Palacios, Ariel
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/07/2007, Economia, p. B3
Kirchner poupa residências do racionamento; empresários reclamam e já começam a suspender as atividades
Apesar do racionamento, o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, recusa-se categoricamente a falar em crise energética. Ontem, Kirchner afirmou que quem fala em crise está tentando tumultuar seu governo. Segundo ele, os boatos sobre a crise são uma estratégia para atacar a candidatura de sua mulher, a senadora Cristina Fernández de Kirchner, à presidência da República em outubro.
O governo aplica o racionamento de energia somente ao setor industrial e comercial, poupando os consumidores residenciais da crise energética. Nesta semana, Kirchner anunciou que de forma alguma aplicará o racionamento aos consumidores residenciais.
Os empresários, enquanto isso, reclamam de serem os únicos a arcar com os custos da crise. ¿Não há sentido em paralisar o pólo petroquímico de Bahía Blanca (cujas exportações são em grande parte destinadas ao mercado brasileiro) e dar gás aos táxis¿, reclamou o ex-secretário de Indústria Javier Tizado, atual diretor da empresa Transelectric, em alusão ao abastecimento normal da imensa frota portenha. Há duas semanas, os taxistas, após dois dias sem gás, fizeram um protesto no centro da capital. O governo, no dia seguinte, normalizou o abastecimento dos veículos. Porém as lideranças empresariais, apesar de reclamarem da falta de energia, não foram atendidas pelo governo. Os líderes da oposição acusam Kirchner de ¿leviandade¿.
MAL-ESTAR
Segundo o ex-secretário de Energia da Argentina Daniel Montamat, o mal-estar popular aumentará significativamente nas próximas semanas. ¿Kirchner não quer implementar um racionamento aos consumidores residenciais para não irritar os eleitores. Mas o eleitor começará a ficar muito chateado na hora que tiver de ficar em casa porque as empresas onde trabalha o despediu por causa da crise energética.¿
Enquanto as empresas estão fechando as pors temporariamente, à espera de um abrandamento da crise energética, milhares de operários foram mandados para as suas casas. Simultaneamente, os sindicatos alertam para o iminente início de uma saraivada de protestos, no caso de ampliação da onda de suspensões de trabalhadores (a ¿suspensão¿ é uma figura da lei trabalhista argentina que determina que os empresários podem enviar os trabalhadores para suas casas pagando 75% dos salários, para não chegar ao ponto da demissão). No comércio, alguns empresários já tomaram a iniciativa de racionar energia. A Argentina viveu sob o risco de crise energética em 2004, 2005 e 2006. Mas, neste ano, o crescimento persistente da economia, somado à impossibilidade da oferta de energia atender à demanda, levou o país à pior crise de abastecimento de energia desde o verão de 1989.