Título: Um teste decisivo para Alcântara
Autor: Nunomura, Eduardo
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/07/2007, Vida &, p. A24
Base do Maranhão lança foguete de 1 milhão para superar definitivamente tragédia com o VLS de 2003.
O Centro de Lançamento de Alcântara está a poucos dias de lançar um novo foguete de sondagem de quase 1 milhão. O veículo levará nove experimentos de cientistas, o esforço de três centenas de profissionais em mostrar o valor do seu trabalho e o desejo de que o local vire referência no envio de satélites para o espaço. Uma operação de risco para um vôo de 20 minutos que põe à prova o programa espacial brasileiro. Também uma tentativa de sepultar de vez a tragédia com o Veículo Lançador de Satélites (VLS), em 2003, e o mal-estar criado com o vôo do astronauta Marcos Pontes.
Em 1969, Flavio de Azevedo Correa Junior tinha 9 anos e viu o homem pisar na Lua. Tornou-se um dos milhões de seres humanos que queriam ser astronautas. Não virou, mas quase. O até hoje fã do seriado Jornada nas Estrelas é o coordenador de experimentos a bordo do VSB-30, um foguete de sondagem construído por mãos brasileiras e alemãs. Ele contextualiza a operação em curso: 'Lançar foguetes é uma atividade estratégica, tem muito mercado. Usamos o veículo de sondagem também para treinar o pessoal para o lançamento de satélites.'
De Neil Armstrong ao doutor Spock, o engenheiro mecânico Flavio construiu uma carreira projetando foguetes e esta é a sua quarta participação no lançamento de um no Brasil. Trabalhou no projeto do VLS. Como outros no Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), que fica no Maranhão, viu colegas do Instituto da Aeronáutica e Espaço (IAE) morrerem no acidente. Foram 21 no total.
O programa VLS fracassou nas três tentativas de levar para o espaço um satélite de comunicação, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O acidente fez o programa aeroespacial brasileiro atravessar um nevoeiro. Tudo teve de ser revisado, revisto e rediscutido.
'Se antes do acidente já era cricri, agora sou duas vezes mais', diz o sargento Jayme Marques Miguel, responsável pela segurança do prédio de preparação de propulsores. É ali que se monta a base do foguete e onde está o combustível com textura de borracha. Se não fosse a rigidez do sargento Jayme, um professor e outros dez alunos que queriam ver de perto o VLS também teriam morrido em 2003. Ele barrou o grupo antes e segurou outros tantos na casamata, no pé da plataforma. Neste lançamento, o militar vem exagerando, para o bem da segurança. Tem proibido até o acesso de alguns profissionais que antes transitavam livremente pelo setor. Como se tivesse de impedir um padre de subir ao altar.
A previsão de lançamento é a partir de quarta-feira, assim como o resgate da carga útil. O VSB-30 ficará seis minutos em microgravidade, atingindo 276 quilômetros de altitude, um ambiente de força gravitacional quase nula. Há outras formas de simular a ausência de gravidade, como uma torre de queda-livre, uma estação suborbital ou o ônibus espacial. Mas nessas situações ou o tempo é curto demais ou o custo, inviável. Daí a importância dos foguetes de sondagem, além de o Brasil dar mais um passo para dominar a tecnologia de lançamento de foguetes.