Título: Protetora de crianças cardíacas tem nova missão: um hospital só para elas
Autor: Sant¿Anna, Emilio
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/08/2007, Vida&, p. A26

A cardiologista Rosa Célia, que se dedica a atender carentes, se prepara para inaugurar outra unidade filantrópica

Para ela, todo paciente precisa ter um ¿dono¿. Um médico capaz de diagnosticar, cuidar e acompanhar a evolução do tratamento. É dessa forma que há 11 anos a cardiologista infantil Rosa Célia Pimentel Barbosa atende, no Rio, crianças de famílias carentes no Pró Criança Cardíaca, entidade filantrópica que fundou em 1996, no bairro de Botafogo.

No início, as consultas eram feitas em seu próprio consultório. Em pouco tempo, no entanto, o espaço ficou pequeno para os mais de 40 atendimentos feitos por semana, em média, dentro do projeto. ¿Quando você começa a atender crianças carentes, acaba tendo de dar outro tipo de apoio, como comida e medicamentos¿, diz Rosa.

A sede do projeto veio apenas cinco anos depois, conseguida à custa das doações de amigos e empresários. Ali são feitos os diagnósticos não invasivos - como eletrocardiogramas e ecocardiogramas - em crianças que chegam à entidade enviadas pelos serviços de saúde de cidades do interior, ambulatórios e hospitais públicos.

Cerca de 20 casos cirúrgicos por mês são encaminhados ao Hospital Pró Cardíaco, onde a médica é a chefe do setor de cardiologia infantil. Todas as cirurgias e exames como cateterismos e ressonância magnética feitos no hospital também são gratuitos para as famílias. A conta é paga pelo projeto.

Agora, toda essa estrutura também já não é suficiente e Rosa se prepara para mais um salto em sua trajetória dedicada ao atendimento de crianças carentes. No próximo ano, a médica inaugura seu maior projeto: um hospital para dar suporte às crianças da entidade.

Batizado de Hospital da Criança, o projeto terá 62 leitos e investimento de R$ 30 milhões. Ao contrário do Pró Criança, o hospital atenderá também pacientes particulares, uma forma de equilibrar as contas. A médica tem uma opinião realista da situação: ¿Se colocarmos apenas crianças carentes lá dentro, acaba virando um Inamps da vida e todos eles (hospitais públicos) vão muito mal.¿ A obra só foi possível por conta das doações de colaboradores, mais uma vez amigos e empresários.

Em 11 anos, o projeto atendeu mais de 9 mil crianças e fez quase 900 cirurgias. A médica comemora os resultados positivos da instituição, mas credita parte desse sucesso à falta de centros públicos especializados no Estado para tratar crianças cardíacas. ¿Essa situação migrou dos hospitais públicos para os privados¿, afirma.

Situação bem diferente da de quando começou sua carreira em hospitais públicos, em 1972. ¿O serviço público era um orgulho para mim, um modelo¿, diz.

ALAGOAS

O prazer em fazer Medicina, Rosa começou a demonstrar ainda menina. Nascida em Palmeira dos Índios, interior de Alagoas (o ano, ela não revela de jeito nenhum), é a quarta de uma família de 11 irmãos. Com 7 anos, já no Rio, ela e um irmão foram para a União das Operárias de Jesus, colégio interno para crianças carentes, no bairro de Botafogo. ¿De lá a gente não saía para nada¿, diz.

Em sete anos, enquanto a solidão crescia, Rosa viu a mãe exatamente sete vezes. Uma visita por ano. O pai, apenas uma. ¿Não tenho mágoa nenhuma, não estaria aqui se não fosse por isso¿, diz.

Com o tempo, a vocação foi aparecendo. Quando um aluno ficava doente ou precisava tomar uma injeção, lá estava Rosa para ajudar na enfermaria. Assim, ela encontrou seu lugar ali dentro até completar 18 anos e seus pais irem buscá-la para ajudá-los em uma pequena fábrica de perfumes que tinham na época, em São João do Meriti, na Baixada Fluminense.

Ela, no entanto, já havia decidido: voltaria para a casa dos pais, mas aquela vida não duraria muito tempo. Queria mesmo era fazer Medicina.

Logo após sair da instituição, o choque. Rosa não conhecia nada além dos muros do colégio interno. ¿Não conhecia o mundo.Tinha medo de tudo, até de pegar um ônibus¿, conta.

Em 1962, a convicção em estudar começou a dar resultados: conseguiu uma bolsa em um cursinho e foi morar na casa de uma tia, no Rio, para prestar o vestibular. Não passou. Resolveu reorganizar a vida. Arranjou emprego de secretária em uma casa de saúde, em Botafogo, onde também foi morar.

Passou o ano de 1963 ali, estudando à noite, trabalhando durante o dia e guardando dinheiro para ajudar a família. A recompensa chegou no final do ano, quando foi aprovada na Faculdade Nacional de Medicina, atual Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). ¿O dinheiro dava certinho para mandar para a família e comprar os livros¿, lembra.

A coragem de ousar, que Rosa mostra hoje, já aparecia naquela época. Dois anos após se formar, fazendo plantões e cuidando de pacientes idosos, decidiu que deveria sair do País para se especializar em cardiologia pediátrica. Estava decidido, iria estudar no National Heart Hospital, em Londres, com uma bolsa de estudos paga pelo Consulado Britânico.

Só um detalhe a separava do sonho. ¿Não falava uma só palavra em inglês¿, conta hoje, divertindo-se. Em dois meses, estudou dia e noite para fazer a prova. Passou.

Mudou-se para Londres e ali começou a construir um caminho que ainda a levou para Houston, nos EUA, antes de voltar para o Brasil. Casou-se, teve dois filhos e ¿partiu para guerra¿, nos hospitais públicos do Rio.

Hoje, ainda passa noites acordada, quando a saúde de alguma criança do projeto se complica. E, se não estiver por perto, faz questão de ser informada. ¿O paciente quer ser cuidado. Ele escolhe você e, quando isso acontece, não tem volta¿, diz. Para ela é assim.