Título: Renan vê 'ataque impiedoso da mídia' e fala em inocência
Autor: Scinocca, Ana Paula e Costa, Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/08/2007, Nacional, p. A6
Senador afirma em plenário que nada fez de irregular, acusa revista de atacá-lo sem provas e garante: ¿Não tenho patrimônio clandestino¿
Em resposta à pressão que vem sofrendo para que renuncie ao cargo, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deixou ontem seu posto na Mesa e, pela primeira vez, foi defender-se na tribuna. Num discurso inflamado, garantiu que não tem ¿patrimônios clandestinos¿ e fez duros ataques à mídia, que acusou de publicar denúncias contra ele sem apresentar provas. Em um forte embate com a oposição, atacou nominalmente seus adversários políticos no Estado de Alagoas - o ex-deputado João Lyra (PTB-AL) e a ex-senadora Heloísa Helena (PSOL-AL).
Ao longo dos quase 20 minutos de discurso, Renan voltou a se dizer vítima de ¿um impiedoso e irresponsável ataque¿ - tudo, segundo ele, fruto de uma ¿pseudodenúncia da revista Veja¿. Afirmou que é ¿agredido diariamente por sistemáticas ignomínias, perfídias, insídias. Todas originadas da briga política paroquial, de interesse regional, e alimentada diariamente por derrotados rancorosos como João Lyra e a ex-senadora Heloísa Helena que, desesperadamente, tentam uma reinserção na vida política nacional¿.
Renan voltou a negar enfaticamente todas as irregularidades de que vem sendo acusado - entre elas a de ter despesas pagas pelo lobista de uma grande empreiteira, a de divulgar notas frias para justificar operações de venda de gado e por fim a de comprar, com ajuda de laranjas, duas empresas de comunicação, sem nada declarar à Receita.
¿É puro delírio¿, replicou o senador, ¿insuflado por ressentimentos da política local que encontram espaço fértil no mau jornalismo e pretendem contaminar parte deste plenário¿. Adiantou, também, que está abrindo processo criminal e civil contra a Veja.
O senador se disse satisfeito com a investigação de que será objeto, a partir desta semana, pelo Supremo Tribunal Federal: ¿Só posso comemorar, porque teremos uma investigação profissional¿. Em seguida, lançou um desafio: ¿Lá adiante, quando eu provar a minha inocência, espero que todos respondam pela sua precipitação, pela sanha acusatória e tentativas de subtrair o sagrado direito de defesa e fragilizar voluntariamente o cargo de presidente do Senado Federal.¿
Frisando ¿não ter nada a temer¿, o presidente do Senado comparou a obstrução planejada pela oposição na Casa com a que o então MDB fazia na ditadura militar. Tentou desqualificar a representação do PSOL que motivou o processo a que responde por quebra de decoro no Conselho de Ética.
¿Aqueles senhores senadores que, por irresponsabilidade e caráter rasteiro, queiram fazer novas representações rabiscadas em guardanapos, baseadas em ouvir dizer, em fofoca, em recorte de jornal, que o façam¿, ironizou. O presidente do Senado anunciou que encaminharia ainda ontem para o Ministério Público Federal denúncia de que a Editora Abril ¿tem negócios ocultos e interesses secretos¿. Para ele, é um ¿escândalo, esse sim de interesse nacional, a fraude que está sendo tentada com a venda da TVA, do Grupo Abril, para a Telefónica por quase R$ 1 bilhão¿. A ilegalidade, segundo Renan, estaria no fato de a eventual compradora ser empresa estrangeira.
CONTRA AGRIPINO
A discussão mais tensa foi travada com o líder dos DEM, o senador José Agripino Maia (RN). ¿Eu me preocupo em ser presidido por um senador que é obrigado a apresentar justificativas a cada semana¿, afirmou Agripino.
Renan rebateu: ¿Lastimo que seja tão precipitado porque sabe da devassa a que estou sendo submetido, da perseguição que sofro, coisas que muitos não agüentariam. Se V. Exa. mesmo estivesse nessa situação, com os negócios que tem, com as concessões que tem, com os financiamentos bancários e estatais que tem, talvez não agüentasse duas semanas de acusação como eu tenho agüentado.¿
Agripino foi à tréplica: ¿A diferença entre nós é que V. Exa. leva esse caso como um caso pessoal e eu entendo como uma questão institucional.¿ E se seguiu um bate-boca. ¿O senhor falou em débitos, que débito. Onde é que existe algum pecado? Se tem, V. Exa. tem a obrigação de dizê-lo.¿ Renan tentou minimizar o ataque, argumentando que se referia à devassa a que estava sendo submetido. Indignado, Agripino avisou que as concessões que tem ¿são todas legítimas¿.
A direção do Grupo Abril, informada das críticas que lhe fez novamente o presidente do Senado, disse nada ter a acrescentar à resposta de anteontem, quando informou que ¿Veja investiga, apura e denuncia tudo o que prejudica o Brasil e pretende continuar fazendo isso¿.