Título: Empresas tentam driblar crise argentina
Autor: Vialli, Andrea
Fonte: O Estado de São Paulo, 17/07/2007, Economia, p. B10

Indústria reduz turnos e substitui combustíveis para evitar o apagão.

As empresas brasileiras e multinacionais com operações na Argentina estão tendo de se adaptar para continuar a produzir com a crise energética. Para driblar as restrições ao uso de energia - já que os consumidores residenciais ganharam preferência no abastecimento -, a indústria está reduzindo turnos e substituindo combustíveis para continuar a produzir no País.

É o caso da Ford, que fabrica na cidade de Pacheco os modelos Focus e Ranger que abastecem o mercado brasileiro. A empresa não reduziu o ritmo de produção, mas concentrou toda a fabricação dos modelos em um só turno. 'A produção em um só turno é possível, e diminui a demanda por energia no horário de pico', diz Rogelio Golfarb, diretor de Assuntos Corporativos para a América do Sul da Ford. 'Outras medidas estão sendo tomadas, como o uso de geradores e também do propano para substituir o gás natural na fábrica', diz Golfarb.

Segundo o executivo, a Ford está investindo US$ 5,7 milhões este ano para ampliar a produção da unidade de Pacheco, dentro de uma política de fábricas complementares, e não deve desacelerar os investimentos por causa da crise energética.

'O que produzimos na Argentina é exportado para a América do Sul e México. O país cresce 7,5% ao ano e é um importante mercado consumidor. Não há razão para frear investimentos, pois estamos conseguindo contornar esse momento mais crítico da crise', diz o executivo.

A Santista Têxtil, que tem uma unidade de produção de denim (tecido para a fabricação do jeans), já sofreu queda de 15% na produção em junho e julho. Além de restrições ao consumo de energia no período de pico, das 16 horas até a meia-noite, a indústria sofre com o desabastecimento de gás natural, usado para abastecer as caldeiras da indústria e em outras etapas do da produção dos tecidos.

'Temos usado óleo combustível para produzir vapor nas caldeiras. Também estudamos a possibilidade de usar GLP (gás liquefeito de petróleo), mas o custo é cinco vezes maior que o do gás natural', diz Camilo Gabrielli, diretor industrial da Santista Têxtil. Outra medida que está sendo adotada para economizar energia é desligar o ar condicionado nas salas de fiação e tecelagem.

A empresa não pensa em deslocar a produção para o Brasil, pois os custos tornariam o processo inviável. 'A saída será diversificar a matriz energética da fábrica, talvez com geradores', diz Gabrielli. Segundo o diretor, a crise ainda não afetou a entrega dos pedidos.

Mas há quem enxergue oportunidades na crise energética argentina. É o caso da Makeni Chemicals, empresa especializada na distribuição de produtos químicos e petroquímicos para a indústria, que acaba de abrir uma filial em solo argentino, a Inkema Chemicals.

Em 2006, o volume de exportações à região foi de US$ 500 mil. Para este ano, a expectativa é fechar US$ 1 milhão em negócios. 'A indústria argentina terá de importar insumos eletrointensivos, que consomem muita energia no processo de produção', diz Reinaldo Metrano, diretor executivo da Makeni. Um exemplo é a soda cáustica, que tem 60% do custo de produção relacionado à energia.