Título: PSDB arma estratégia contra o PT
Autor: Marchi, Carlos
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/08/2007, Nacional, p. A8

Em seminário realizado pelo partido, FHC afirma que disputa será com o governo Lula e não com a economia

¿A economia vai bem, mas o governo vai mal¿, afirmou ontem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, ao estimular o PSDB, num seminário do partido, a enfrentar o governo do PT. ¿Nós vamos disputar a eleição com o governo, não com a economia¿, complementou, alinhando uma série de temas que os tucanos devem transmitir ao povo brasileiro. O principal é o combate à impunidade: ¿A lei, no momento, é que o crime compensa. E quem morre mais são os pobres da periferia¿, disse, criticando a idéia de que o governo do PT ¿é dos pobres¿.

No mesmo seminário, fechado à imprensa, os tucanos ouviram os principais economistas do partido dizerem que ¿a economia vai bem e o governo vai mal¿. O ex-ministro Pedro Malan afirmou que o governo Lula não poderá fugir de uma rigorosa reforma da Previdência: ¿Estamos em rumo de colisão¿, alertou. O ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros traçou um cenário extremamente favorável ao governo Lula na economia, mas previu dificuldades a partir de 2010. E sentenciou: ¿A tensão vai aumentar sobre a classe média.¿

O ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco pediu que o PSDB embarque ¿num sonho¿ e opinou que o protagonista do crescimento será o setor privado. ¿O Estado não é capaz de liderar o processo de desenvolvimento e não é capaz de produzir investimentos¿, observou. Já o economista Roberto Gianetti da Fonseca disse que o início do segundo governo Lula ¿traduz um momento de extrema indefinição sobre o que o Brasil pretende ser em sua inserção internacional¿.

O economista Gesner de Oliveira sintetizou o pensamento dos economistas tucanos em três itens: o governo Lula é beneficiado por um ciclo favorável às exportações sem precedentes na história brasileira; o Brasil está perdendo uma janela de oportunidades em razão de erros na política econômica do governo Lula; e o conjunto de instrumentos de políticas de macro e microeconomia conspira contra a produção e o investimento. ¿Temos uma média de inflação igual à dos países emergentes, mas crescimento muito abaixo deles¿, contou.

ARGUMENTOS A FAVOR

No começo, Malan disse lamentar que o PSDB não tenha defendido as privatizações ¿como deveria¿. No final, FHC cobrou da platéia lotada de militantes e de deputados tucanos que o PSDB tem muitos argumentos para falar com o povo. Primeiro, desfiou o que considera erros do governo Lula, apontando que o PSDB deve ocupar as áreas social e de infra-estrutura. ¿Energia é um desastre¿, constatou, para perguntar: ¿Qual foi a contratação de energia deste governo?¿ E apontou que o governo Lula ¿vai quebrar o galho, contratando energia a diesel às pressas¿.

¿E portos?¿, prosseguiu. ¿Meu governo fez vários portos e reformou outros tantos. Qual o porto que ele fez? Zero.¿ Mencionou a péssima situação das rodovias brasileiras e ironizou: ¿Iam fazer PPPs. Depois cancelaram. Agora vão fazer concessões.¿ Mas a sugestão maior de proposta para o PSDB foi que deve apadrinhar o combate à impunidade: ¿Não tem crescimento sem segurança pública¿, sublinhou. ¿Estamos corroendo a idéia da igualdade jurídica do cidadão.¿

E desabafou: ¿Eu não quero que caia o raio, mas se cair um raio na cabeça desse governo, cai na nossa, tal a incompetência deles.¿ E cobrou também do partido que defenda valores e crenças. Animou o partido a enfrentar o momento adverso, em que o PT de Lula parece imbatível: ¿Eu ganhei duas vezes no primeiro turno contra Lula, e na segunda vez, em meio à crise.¿ E provocou: ¿E nós vamos competir, não com Lula, mas com um partido que não sabe governar e que está coberto de escândalos.¿

TEMAS ELEITORAIS

Malan propôs que o PSDB adote, para as eleições de 2010, três conjuntos de temas: liberdades individuais (propostas voltadas para as pessoas, como discussão sobre formas de empreendedorismo); igualdade e justiça (nivelamento de oportunidades) e eficiência (no setor público e no setor privado). A proposta foi ironizada por Mendonça de Barros, integrante do antigo grupo dos desenvolvimentistas do PSDB, que confrontavam os monetaristas de Malan: ¿Só se for para perder a eleição...¿

Mendonça defendeu que o cenário econômico do País é extremamente favorável ao PT de Lula. Para ele, há dados irrefutáveis beneficiando o governo: o salário mínimo cresceu sistematicamente desde 1995, medido em cestas básicas e em real, e o povo atribui esse crescimento ao governo Lula; o mesmo acontece com o crescimento do País. ¿Nós sabemos que isso é mérito nosso, mas o povo não pensa assim¿, advertiu.

Mas ele acha que os alimentos vão começar a pressionar os ganhos do salário mínimo e o emprego continuará diminuindo para quem ganha mais de 4 salários mínimos. E na parte fiscal, os problemas chegarão em 2009, ¿se o governo mantiver os níveis de gastos¿.

Malan foi contra propostas de redesenhar o Plano Real. ¿Temos é de gerir melhor o governo e a economia.¿ Por fim, os economistas salientaram que o governo Lula também enfrentará problemas com a desestruturação que promove nas agências reguladoras.