Título: 'Não vejo crise sistêmica'
Autor: Veríssimo, Renata e Fernandes, Adriana
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/08/2007, Economia, p. B3
Entrevista
Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e sócio da Mauá Investimentos
Para ele, intervenção do BCE dá tranqüilidade ao mercado, mas aperto mais forte da liquidez pode trazer problemas
O economista Luiz Fernando Figueiredo, que foi diretor do Banco Central (BC) na gestão de Arminio Fraga, ainda não vê crise no mercado financeiro. Mas alerta que, se a escassez de crédito se aprofundar, 'até instituições saudáveis podem ter problemas'.
Com os acontecimentos de hoje (ontem), já dá para tratar o que ocorre no mercado como crise?
Esse negócio de falar a palavra crise ou não é o seguinte: estamos num processo de turbulência que não é pequeno. Estamos vendo poucos efeitos no Brasil porque o País está bastante sólido. O epicentro está no (segmento de crédito imobiliário) subprime dos Estados Unidos, mas começa a ter impacto em vários lugares do mundo. Isso ocorre não porque haja um problema maior no mercado de crédito americano, mas porque investidores do mundo todo têm outros tipos de créditos. Como os spreads (taxas) estão aumentando, todos sofrem. Uns mais, outros menos, mas todos sofrem. A maioria absoluta dos casos, 99%, aconteceu com quem estava ligado ao subprime. Por exemplo, os fundos do BNP Paribas estavam com dificuldade de precificar (dar preço) às carteiras dos fundos. Não é que o fundo quebrou. Eles consideraram que, para fazer uma boa avaliação dos ativos de crédito, era difícil. Para não ter problema de gente sacando sem um preço correto dos ativos, preferiram preventivamente fechar. Isso gerou mal-estar no meio dessa confusão. Com isso, o próprio Banco Central Europeu (BCE) deixou claro que vai dar a liquidez necessária ao mercado.
A intervenção do BCE no mercado hoje (ontem) foi a maior desde os ataques terroristas de dia 11 de setembro de 2001. Como explicar às pessoas comuns o que significa esse tipo de intervenção? Preocupa?
Preocupa porque pode haver, numa situação-limite, um problema maior de liquidez. Nesse caso, mesmo instituições saudáveis podem ter problemas se houver um aperto muito grande. O banco central dá liquidez para o sistema, para que fique tranqüilo e até consiga separar o joio do trigo. Ou seja, aquilo que está bem está bem. Não vejo crise sistêmica nem mesmo turbulência sistêmica. O que há é um processo financeiro de desalavancagem.
Se o mercado não se regulariza, muitas empresas do sistema financeiro podem sair machucadas?
O remédio para um problema de liquidez é gerar liquidez. Não se está falando que os bancos têm problemas de liquidez de médio e longo prazos. É uma questão tópica. Com a questão do BNP Paribas, houve um receio grande que provocou o que chamamos em finanças de empoçamento de liquidez. O BCE fez isso para que, na dúvida, não haja esse empoçamento. O Brasil passou por isso muitas vezes no passado, especialmente em 2002.
Há um limite para que os bancos centrais dêem essa liquidez?
Em situações como esta, o comum é as pessoas acharem que o buraco não tem fundo. Isso não é verdade. Não só o BCE, mas também o banco central americano e governos de vários países respondem a situações desse tipo. É importante ressaltar o risco moral. Não se pode salvar uma empresa, um fundo, etc. que tenha uma atitude irresponsável. Os bancos centrais têm de tomar cuidado com esse tipo de atitude, que é muito danosa.
Como o Brasil está para enfrentar essas turbulências?
O Brasil nunca esteve tão forte. Tivemos fluxo de US$ 11 bilhões em julho. Me arrisco a dizer que o fluxo continuou positivo em agosto. O volume de estrangeiros que vêm aqui fazer operações de curto prazo hoje é zero. Os ativos, claro, acabam acompanhando o movimento global, mas a economia real, para sofrer, precisaria de uma redução muito grande na expansão mundial, de 5% para a casa de 3%. Nunca, na minha carreira de 27 anos, vi o Brasil tão robusto como hoje.