Título: Empresas criticam 'intervenção' de Jobim
Autor: Tavares, Bruno
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/08/2007, Metrópole, p. C3

Setor admite que espaço médio entre poltronas diminuiu nos últimos 20 anos, mas retoma discurso de que pode reajustar passagens

As empresas aéreas reagiram com indignação às críticas feitas ontem pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, sobre o espaço entre as poltronas da frota do País. E voltaram a cogitar a possibilidade de aumento das passagens. Na opinião de especialistas e executivos do setor ouvidos pelo Estado, a posição de Jobim é ¿intervencionista¿. ¿O presidente Lula disse há alguns meses que as companhias deveriam adquirir novos jatos e baratear ainda mais as tarifas. Só que as declarações do ministro vão na contramão de tudo isso¿, protestou um deles.

Na prática, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) tem prerrogativas para baixar uma norma determinando a configuração interna dos aviões. Mas, para isso, teria de apresentar justificativas técnicas. Nos Estados Unidos e na Europa, onde ficam as sedes das maiores fabricante de jatos comerciais, o limite mínimo entre as poltronas varia de 27 a 28 polegadas - aproximadamente 70 centímetros. A distância, segundo especialistas, leva em consideração tanto os requisitos básicos de segurança de vôo quanto de conforto dos passageiros.

¿Países cujas populações têm estatura média superior à nossa seguem as mesmas diretrizes¿, afirmou outra fonte do setor. Não há estudos atualizados a esse respeito: a estatura normalmente apontada como a média da população masculina é de 1,70 metro, mas especialistas acreditam que ela já aumentou para 1,75 m. ¿Um dos fatores de redução dos custos das empresas está justamente na quantidade de poltronas disponíveis. Se você mexe na lotação das aeronaves, altera o equilíbrio econômico das companhias e, conseqüentemente, interfere nos preços¿, completou a mesma fonte.

No Brasil, a TAM e a Gol, líderes do mercado doméstico, dizem seguir à risca as especificações internacionais da Agência Européia de Segurança de Aviação (Easa) e da Agência Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA). Mas o fato é que, na busca por tarifas mais atraentes, acabaram economizando no conforto. Nos anos 80, quando a Varig reinava hegemônica, a distância entre os assentos era de, pelo menos, 83,8 cm. Com o surgimento das companhias de baixo custo, no início desta década, o espaço interno começou a ficar mais apertado.

No ano passado, a TAM reformulou a configuração de toda sua frota de Airbus. Os modelos A319 e A320 ganharam uma fileira de seis assentos, passando a comportar 144 e 174 passageiros, respectivamente. Embora a largura das poltronas tenha permanecido a mesma, a distância foi reduzida em 3,7 cm - passando de 81,2 cm para 77,5 cm.O arranjo interno dos Boeing 737-800 da Gol é semelhante. O espaço entre os assentos varia de 77,5 a 80,2 cm.

A proliferação dos aviões de ¿alta densidade¿ - eufemismo do setor para aeronaves apertadas - não está restrita ao Brasil. Na Europa, companhias de baixo custo passaram a cobrar tarifa extra de quem deseja viajar nas poltronas próximas às saídas de emergência, geralmente menos espremidas. As empresas americanas, por sua vez, operam com assentos cada vez mais próximos do limite mínimo de segurança.

Comparativamente, no entanto, as empresas de baixo custo estrangeiras oferecem preços muito inferiores aos praticados pelas companhias nacionais. Na inglesa EasyJet, por exemplo, uma passagem promocional entre Londres e Paris (distância de 350 quilômetros) chega a custar 27 libras (pouco mais de R$ 100,00), incluindo as taxas. Na Gol, a ponte aérea Rio-São Paulo (400 km) sai, em média, por R$ 200,00, sem as taxas.