Título: 'Quem especulou quebrou a cara'
Autor: Oliveira, Clarissa
Fonte: O Estado de São Paulo, 22/08/2007, Economia, p. B5
Lula ataca investidores no mercado imobiliário americano e pressões para criar um dólar para cada setor no País.
Em um discurso que misturou críticas a investidores prejudicados pela crise imobiliária americana e cobranças ao empresariado por investimentos responsáveis, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a rebater, ontem, as queixas à política cambial. 'Quem tentou especular quebrou a cara e vai quebrar sempre a cara quem acha que vai ganhar dinheiro fácil, sem trabalhar', disse ele.
Ao inaugurar uma usina de biodiesel do Grupo Bertin em Lins, no interior paulista, Lula aproveitou a platéia de empresários, como os presidentes do Bradesco, Márcio Cypriano, e da Nestlé, Ivan Zurita, para se queixar do fato de cada setor apresentar demandas diferentes em relação ao dólar. Segundo ele, cabe ao mercado regular a moeda americana.
'O governo não fará nenhuma mágica porque não tem mágica. O mercado vai tratar de regular esse dólar', disse Lula. 'Não é possível criar um dólar para o boi, um dólar para a soja, um dólar para a Nestlé, um dólar para o Bradesco, um dólar para a cana-de-açúcar.'
Ele comparou investidores prejudicados pela crise imobiliária nos EUA a apostadores em cassinos. Voltando-se para Cypriano, Lula disse que perderam aqueles que tentaram 'ganhar dinheiro fácil'.
'E não é justo o povo brasileiro pagar pela irresponsabilidade daqueles que querem ganhar dinheiro na agiotagem. Não é humanamente justo, não é socialmente compreensível', afirmou Lula, destacando que duvida que uma empresa como o Bradesco tenha perdido dinheiro na crise nos EUA.
Ainda em referência à crise americana, o presidente disse que esse é um problema que 'eles têm de resolver'. 'Alguns tentaram vender a idéia de que essa crise iria atingir o Brasil, mas posso dizer a vocês que a nossa economia está mais sólida do que já esteve em qualquer outro momento.'
IMBATÍVEL
O presidente voltou a exaltar a competitividade brasileira no setor de biocombustíveis e disse que o País será 'imbatível' em preço e volume de produção. Ele avisou também que pretende continuar a maratona de viagens ao exterior para promover o biodiesel e o etanol. 'Quem quer vender tem que fazer propaganda do produto.'
Ao comentar o avanço do etanol, Lula comparou o álcool brasileiro com o norte-americano. 'Quando o americano estiver dependente do álcool da cana, vai perceber que o milho é para encher o papo da galinha'.
Ele voltou a rebater as teses de que os biocombustíveis poderão prejudicar a produção de alimentos ou avançar sobre florestas nativas. 'Este País ainda tem 69% de sua mata original preservada, enquanto os países ricos que tentam nos dar uma lição só têm 0,3%', alfinetou.
'CHEIRO DE PICANHA'
A nova usina do Grupo Bertin utiliza o sebo bovino como matéria-prima do biodiesel, extraído no frigorífico controlado pela empresa. Ao visitar as instalações, com capacidade para processar 110 milhões de litro do óleo combustível por ano, Lula brincou ao sentir o cheiro do produto. 'Aqui jaz um boi', disse ele, arrancando risos da platéia. 'Tem cheiro de picanha.'
Ao comentar o avanço brasileiro em outras áreas como na exportação de carne, Lula repetiu que pretende assegurar recursos para a defesa sanitária. Para ele, a medida é fundamental para evitar que outros mercados se utilizem de argumentos nessa área para barrar o produto brasileiros. 'Quando a gente é pequeno, ninguém dá bola.Quando a gente vira importante, cuidado', arrematou.
FRASES Luiz Inácio Lula da Silva Presidente da República
'Não é justo o povo brasileiro pagar pela irresponsabilidade daqueles que querem ganhar dinheiro na agiotagem. Não é humanamente justo, não é socialmente compreensível.'
'Não é possível criar um dólar para o boi, um dólar para a soja, um dólar para a Nestlé, um dólar para o Bradesco, um dólar para a cana-de-açúcar.'