Título: Monges guardam passado do clima
Autor: Chade, Jamil
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/08/2007, Vida&, p. A31
Pesquisadores buscam pistas do efeito estufa em registros medievais
Em um mosteiro de mais de mil anos, entre certificados de indulgências e cartas empoeiradas, um verdadeiro tesouro pode ser uma das peças que faltavam para que cientistas entendam as mudanças climáticas no planeta. Na pequena cidade de Einsielden, nos Alpes suíços, monges guardam diários da Idade Média que descrevem dia a dia as condições meteorológicas da região - os registros estão fazendo com que pesquisadores comecem a buscar dados em conventos e mosteiros para tentar fechar um quebra-cabeça sobre o aquecimento global. Eles querem saber como estava a Terra há mil anos.
No caso do mosteiro suíço, que abriu seus arquivos ao Estado, as informações dos diários dos monges se referem apenas a uma pequena região e nenhum deles sequer imaginava a existência de continentes como a América. Mas, para os pesquisadores, os documentos têm um valor incalculável. Isso porque as agências meteorológicas nacionais foram criadas apenas no século 19 e poucos dados detalhados sobre os séculos anteriores podem ser encontrados com informações diárias sobre clima, vento e umidade.
Já na Idade Média, porém, a preocupação com o clima tinha uma explicação econômica e não eclesiástica. A renda da população que vivia na região, assim como os impostos pagos à Igreja, vinham quase todos da produção agrícola. Saber qual seria a renda do ano seguinte, portanto, era fundamental para as contas dos monges.
¿O mosteiro era muito dependente da agricultura e, naquela época, não tínhamos instrumentos. Só a observação¿, explica o irmão Konrad Heise, hoje responsável por manter a tradição milenar e enviar todos os dias para as autoridades suíças os dados sobre clima.
O mosteiro de Einsielden foi criado no ano de 934 pelos beneditinos e, por quase 600 anos, foi a verdadeira sede do governo da região. Chegou a ter terras em vários locais diferentes e até controlou a área próxima a Zurique, hoje um dos principais centros financeiros do mundo.
PRECIOSIDADE
Entre as centenas de caixas de madeira guardadas nos porões do convento, um dos documentos mais preciosos é o diário dos anos 1683 e 1684, escrito pelo monge Joseph Dietrich. Nele, o religioso conta detalhes não apenas do volume de chuva ou tempo de sol, mas tamanhos de nuvens, comportamento das árvores, frutas, dos cultivos e ainda as reações das pessoas aos diferentes climas.
No dia 8 de maio de 1684, por exemplo, Dietrich escreve que a cidade vivia ¿mais uma dia extremamente quente¿, apesar de ainda ser primavera. No mesmo ano, no dia 18 de novembro, registrou que ¿o inverno já chegou, com uma neve antecipada, assustando animais ainda não prontos para iniciar o período de frio mais duro¿.
O diário ainda dá detalhes sobre a chuva em diferentes horários do mesmo dia. ¿Hoje, encontramos uma manhã molhada, pois choveu toda a noite e, pela manhã, a água ainda caia. Em locais mais elevados na montanha, nevou. Pelo meio-dia, a chuva parou e o sol surgiu. Às 3 horas da tarde, o tempo já era ensolarado¿, escreve Dietrich sobre o dia 30 de maio de 1695.
Cientistas alertam que a grande contribuição dos documentos pode ser a de revelar qual está sendo a aceleração das mudanças climáticas. ¿As informações nos livros antigos são fundamentais para que se possa construir a história do clima no planeta¿, conta o pesquisador da Universidade de Berna, Cristian Pfister, que está analisando os registros.
No século 14, segundo ele, houve também um aquecimento maior do planeta, mas com uma pequena contribuição da humanidade. Ainda assim, as conseqüências para as décadas seguintes somente podem ser entendidas com a leitura cuidadosa de diários em conventos.
SÉRIES HISTÓRICAS
Em sua avaliação, alguns outros conventos também contam com tais dados, mas não por tanto tempo como em Einsielden. Outra fonte de informação são locais religiosos no Nepal e ainda alguns dados do Oriente Médio e de Roma, onde se espera encontrar esclarecimento sobre o clima na Antiguidade.
Outro problema é o desaparecimento de séries históricas. No caso de Einsielden, os diários quase foram destruídos em várias ocasiões, seja por fogo ou perseguições. Em 1789, na Revolução Francesa, os monges tiveram de fugir. Alguns levaram consigo os diários. Outros os enterraram na floresta, o que explica o fato de muitos livros terem manchas de terra.
Parte dos documentos ainda está guardada nos mesmos armários onde o mosteiro mantém crânios de monges mortos no século 17. Os textos sobre o clima dividem espaço com cartas de papas, autorização do Vaticano para que o mosteiro cobre pelas indulgências, além de uma carta da família Habsburgo, uma das mais poderosas da Europa, confirmando pagamento em 1468 para a reza de uma missa por ano.
Apesar da descoberta dos documentos, não apenas o acesso aos mosteiros é um obstáculo, mas sua própria leitura. No caso da Suíça, a maioria dos textos está escrita em alemão medieval, misturado com o dialeto da região e, em alguns casos, com latim. ¿Não são muitos os meteorologistas que conseguem entender o alemão medieval¿, lamenta Andreas Meyerhans, um dos responsáveis pelo arquivo.
Mas, se depender dos 90 monges que vivem em Einsielden, a tradição será mantida. Ao terminar a conversa, o irmão Konrad pediu desculpas por ter de interromper a visita ao arquivo. Precisava mandar os dados sobre o clima às autoridades suíças. Hoje, porém, o faz por seu laptop, cercado de imagens de santos, cruzes e terços.