Título: Pessimismo volta e derruba bolsas
Autor: Modé, Leandro
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/08/2007, Economia, p. B1

No Brasil, Ibovespa cai 2,7% e dólar supera de novo R$ 2; investidores temem desaceleração da economia dos EUA

Depois da trégua dos últimos dias, a turbulência financeira voltou com força ontem e derrubou bolsas de valores no mundo todo. A nova rodada de quedas, como vem ocorrendo, foi liderada pelo mercado acionário dos Estados Unidos. O Índice Dow Jones recuou 2,10% e a bolsa eletrônica Nasdaq, 2,37%. No Brasil, o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) perdeu 2,70% e o dólar avançou 2,67%, para R$ 2,003. O risco Brasil disparou 5,5%, para 211 pontos.

Entenda a crise nos mercados

Segundo analistas, nenhum fato específico desencadeou o mau humor. 'O mercado continua sensível, a escassez de crédito persiste e não houve nenhuma notícia boa que justificasse nova alta das bolsas', sintetizou a economista-chefe do Banco ABN Amro Real, Zeina Latif.

As notícias do dia, aliás, fomentaram o nervosismo. A ata da reunião de 7 de agosto do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), por exemplo, revelou que, naquele momento, a inflação ainda era a principal preocupação do BC americano - embora os diretores da instituição tenham chamado a atenção para a crescente turbulência nos mercados.

'A ata criou a expectativa de que o Fed manterá o juro na reunião de setembro (a ser realizada no dia 18), o que desagradou aos investidores', disse o analista de renda variável da Corretora Coinvalores Carlos Nunes. Grande parte da melhora do mercado nos últimos dias deveu-se justamente à expectativa de que o Fed cortaria a taxa básica de juros dos atuais 5,25% para 5% ao ano no próximo encontro.

Para Zeina, o pessimismo com que a ata foi recebida deve ser relativizado. '(A ata) já é notícia velha', observou, lembrando que a reunião do BC americano ocorreu no início da crise. A primeira forte queda dos mercados ocorreu em 26 de julho.

O economista-chefe do Pátria Investimentos, Luís Fernando Lopes, avalia que o Fed só vai reduzir o juro se estiver 'convencido dos impactos negativos das turbulências nos mercados na atividade econômica'.

Outra informação negativa surgiu de uma pesquisa realizada pela agência de classificação de risco Standard & Poor's em conjunto com a MacroMarkets. O levantamento mostrou que os preços dos imóveis nos EUA recuaram 3,2% no segundo trimestre em relação a igual período de 2006, maior queda desde que o índice foi criado, em 1987.

Além disso, o Índice de Confiança do Consumidor de agosto nos EUA atingiu o nível mais baixo desde a passagem do furacão Katrina pelo país, em agosto de 2005. Esses indicadores de confiança têm sido acompanhados com muita atenção pelos analistas porque devem ser os primeiros a captar o potencial efeito da turbulência na economia real.

'A volatilidade dos mercados financeiros e a contínua turbulência no mercado hipotecário podem ter contribuído para o espírito mais comedido dos consumidores', disse Lyn Franco, diretora do centro responsável pelo levantamento. 'Mas, apesar das condições menos favoráveis, os consumidores permanecem confiantes', ressaltou.

Para os próximos dias, a única certeza entre os analistas é a manutenção da volatilidade. 'O mercado ficará de olho nos indicadores da economia americana e em notícias sobre o impacto da crise imobiliária no sistema financeiro', disse Nunes.