Título: Se roubava do cafezinho até a parte mais cara do aeroporto
Autor: Scinocca, Ana Paula
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/09/2007, Metrópoles, p. C4

Entrevista

Demóstenes Torres, relator da CPI do Apagão Aéreo

Senador promete nominar `um a um¿, no fim da CPI, os integrantes da `quadrilha¿ que, segundo ele, instalou-se na Infraero

Ele é a própria CPI. Em seu primeiro mandato como senador, Demóstenes Torres (DEM-GO) tem se destacado à frente da comissão que investiga o apagão aéreo no Senado. Sem muitos holofotes - já que rivaliza com investigação em curso sobre o mesmo tema na Câmara dos Deputados -, ele tem conseguido avançar na apuração e promete para outubro, quando a CPI deve terminar, nominar ¿um a um¿ os integrantes da ¿quadrilha¿ que, segundo ele, instalou-se na Empresa Brasileira de Infra-Estrutura Aeroportuária (Infraero). ¿Se roubava desde o cafezinho até a parte mais cara do aeroporto, a pista, o mármore.¿

O senador reconhece que o fato de a CPI não ter despertado o interesse dos colegas do Senado tem facilitado seu trabalho. ¿Chega um momento em que se a coisa tiver (politicamente) muito acirrada fica muito improdutivo porque começa o debate político: foi o Lula, foi antes do Lula, foi o Fernando Henrique que começou. Corrupção é um negócio suprapartidário¿, afirmou. ¿Os malandros estão em todos os governos e, às vezes, migram de um governo para outro.¿

Após passar oito horas em outro embate, desta vez no Conselho de Ética do Senado, onde o caso de Renan Calheiros (PMDB-AL) está sendo julgado, Demóstenes recebeu a reportagem na noite de quinta-feira em seu gabinete. Na sexta, o Estado contatou a Infraero relatando as afirmações do relator da CPI do Apagão no Senado. Por meio de sua assessoria de imprensa, a empresa disse que só se manifestaria após a publicação da reportagem. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A CPI do Apagão Aéreo se transformou na CPI de um homem só. Na semana passada, quando o senhor teve de de se ausentar, a sessão foi encerrada logo em seguida. Como é ser relator de uma CPI sem disputa política?

É claro que é importante ter os companheiros, os senadores, e a gente trocar opinião. Mas chega um momento em que se a coisa estiver muito acirrada fica muito improdutivo porque começa o debate político: foi o Lula, foi antes de Lula, foi o Fernando Henrique que começou, foi o Lula que foi adiante. Corrupção é um negócio suprapartidário. Os malandros estão em todos os governos e, às vezes, migram de um governo para outro.

Por que a CPI do Senado tem baixíssimo quórum?

Há um desinteresse das pessoas em comparecerem porque acabam incriminando A ou B, que são companheiros antigos. Mas a ausência, de certa forma, acaba facilitando o trabalho da CPI e fazendo com que ela tenha um perfil mais técnico que as outras. Isso é importante porque começa a dar resultado. Não vou dizer que a causa exclusiva da queda de muitos foi pelo nosso trabalho. Mas tivemos como criticar o ministro da Defesa com propriedade. Tivemos como mostrar as fragilidades da Agência Nacional de Avião Civil (Anac), o esquema de corrupção gigantesco que existiu dentro da Infraero e, de certa forma, ainda está instalado lá. É uma CPI de resultados.

Mas não sente falta do contraditório? Já que ninguém aparece para debater e perguntar?

Sim. Mas esse jogo acaba minimamente acontecendo. O senador Tião Viana (PT-AC, presidente da CPI) está sempre presente. Ele é do PT e é uma figura que tem se portado muitíssimo bem. Não atrapalha em nada a investigação. Tem o Mário Couto (PSDB-PA), que também é uma pessoa que está sempre presente, fazendo questionamentos.

O senhor fez carreira no Ministério Público e percebe-se que fica muito à vontade na hora de fazer perguntas. Na CPI, quem fala mais forte, o senador ou o procurador?

Não abandonei a minha carreira. Eu entrei no Ministério Público antes de 1988, estou licenciado e posso, a qualquer instante, voltar para a minha carreira. E é certo que vou me aposentar lá. Estou em meu primeiro mandato como senador, foi a primeira vez que disputei a eleição e comecei no Parlamento já como senador. Muita gente fica brincando, dizendo que ¿o Demóstenes não é senador, ele é promotor, é procurador¿. Minha área é essa. A vida inteira trabalhando em muitos lugares. Fui procurador-geral de Justiça do meu Estado por duas vezes. Meu perfil é técnico mesmo.

A CPI já viu um brigadeiro emocionado, chorando mesmo (Jorge Kersul, do Cenipa), outro brigadeiro recuando de uma denúncia (o ex-presidente da Infraero, José Carlos Pereira), uma diretora da Anac tropeçando nos fatos (Denise Abreu). O que o marcou mais?

Confesso que fiquei particularmente emocionado com o choro do brigadeiro Kersul. Pelas investigações que fizemos, o brigadeiro José Carlos Pereira é um homem limpo. E o brigadeiro Kersul comandou um trabalho magnífico no resgate dos corpos do acidente da Gol (em setembro e outubro do ano passado).

Neste momento da investigação da CPI, quais as conclusões a que já chegou?

Primeiro, podemos concluir com segurança que os causadores do acidente da Gol foram os pilotos do Legacy e alguns controladores de vôo. Em várias circunstâncias, o acidente poderia não ter acontecido se alguém tivesse cumprido bem sua obrigação. Em relação às causas do apagão aéreo, acho que conseguimos detectar bem e apontamos, mesmo antes do acidente da TAM, que a Anac não tem função. Foi um órgão criado mais para acobertar pessoas que, embora inteligentes, eram absolutamente incompetentes para estar naquele lugar. Pessoas que beneficiaram empresas aéreas, que congestionaram os aeroportos e ajudaram a criar esse caos. Também constatamos que a Infraero é esse antro de corrupção, que o Ministério da Defesa não funcionava, que nós não temos um plano aeroportuário e que voar hoje no Brasil realmente não é seguro. Mas, em breve, poderemos ter confiança nesse sistema. Posso dizer com tranqüilidade que estamos chegando ao final da investigação na Infraero onde nós vamos apontar o nome da quadrilha, desses membros de crime organizado que tomaram conta de lá para fazer com que as obras nos aeroportos fossem inadequadas, superfaturadas, que privilegiassem a beleza ao invés da segurança e acabaram desviando uma grande soma de recursos, com vários artifícios, licitação, financiamento de campanhas políticas, utilização de laranjas.

O senhor falou em desvio de ¿grande soma de recursos na Infraero¿. É possível estimar, neste momento, esses recursos?

Esses desvios aconteceram praticamente em todas as obras. Se roubava desde o cafezinho até a parte mais cara do aeroporto, a pista, o mármore. Isso, tenho a certeza, nós vamos quantificar adequadamente e repassar para as instituições que vão punir esses delinqüentes.

Senado e Câmara instalaram duas CPIs para investigar o mesmo assunto, o apagão aéreo brasileiro. Por que isso?

A CPI do Senado poderia não ter existido. Ela só foi constituída porque a CPI da Câmara sofreu quase um processo de engavetamento. Mas eu acho que as coisas são absolutamente complementares.

Quem é: Demóstenes Torres

Senador de Goiás pelo Democratas (DEM) há 12 anos.

Em seu primeiro mandato, tem se destacado na Comissão de Constituição e Justiça e na CPI do Apagão Aéreo do Senado, onde é relator.

Foi procurador-geral de Justiça de Goiás por duas vezes.