Título: OMC alerta: ricos podem enganar os emergentes
Autor: Kuntz, Rolf
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/09/2007, Economia, p. B15
Pascal Lamy adverte para riscos dos acordos oferecidos pelos ricos
A Organização Mundial do Comércio (OMC) alerta que a segurança internacional será colocada em risco se as negociações da Rodada Doha fracassarem e adverte que países emergentes correm o risco de serem ¿enganados¿ pelas ofertas de acordos bilaterais das economias ricas. O recado foi dado ontem pelo diretor-geral da organização, Pascal Lamy, que adverte que o Brasil, os Estados Unidos e a Europa terão de ceder em suas posições para que um entendimento seja atingido.
Ele ainda apela para que os governos mantenham a OMC como uma prioridade política. ¿Sem um incentivo político, não conseguiremos fechar um acordo¿, disse. A OMC deu até outubro para que os 151 países da entidade cheguem a um acordo. O clima entre os governos, porém, é de desconfiança diante das diferenças de posições em temas como agricultura e tarifas para bens industriais. Para Lamy, essa situação somente será superada se os principais atores abandonarem suas atuais estratégias: ¿Estamos entrando na fase final das negociações.Precisamos de um empurrão final e constante atenções por parte dos líderes¿.
O temor em Genebra é de que, com o impasse se prolongando, governos e setor privado percam o interesse na OMC. Nos últimos meses, americanos e europeus vêm se queixando da resistência dos países emergentes em abrir seus mercados. Já as economias em desenvolvimento deixam claro que não estão dispostas a pagar um preço elevado no setor industrial por pouca liberalização agrícola.
Lamy, porém, adverte que as economias emergentes não podem seguir as mesmas políticas industriais adotadas no passado pela Europa e Estados Unidos. As principais economias mantiveram fechados seus mercados por anos para permitir a construção de empresas competitivas. O que muitos países emergentes alegam, portanto, é que também precisam desse período de proteção.
¿As condições de industrialização dos europeus são diferentes das condições que existem hoje¿, afirmou Lamy. Para ele, repetir a mesma estratégia pode ser ¿perigoso¿ e ¿não faz sentido no mundo de hoje¿. O francês admite que isso não significa que não haverá espaço para políticas industriais. Mas terão de ocorrer em escalas consideradas como ¿adequadas¿.
Lamy também alerta aos países emergentes que acordos bilaterais não são alternativas à OMC. ¿Sabemos que a busca por acordos bilaterais ocorre diante da frustração com o processo na OMC¿, admitiu Lamy. Mas ele adverte que muitos aspectos que distorcem o comércio internacional, como subsídios, não serão solucionados de forma bilateral. Nos últimos meses, vários países iniciaram novas iniciativas para estabelecer acordos bilaterais. ¿Muitos países serão enganados¿, apontou Lamy.
Para o diretor da OMC, a Rodada ainda terá um papel importante em garantir uma estabilidade internacional, mesmo em termos de segurança. A OMC, na avaliação de Lamy, é um fator de paz, já que criaria leis mais justas para os países emergentes. ¿A Rodada tem uma importância estratégica¿, disse. ¿Um sucesso em Genebra dará um sinal de que a globalização pode ser positiva e importante para fazer avançar também negociações como a de imigração, fluxo de capitais e redução de emissões de carbono.¿