Título: Olimpíada infla a bolsa chinesa
Autor: Kuntz, Rolf
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/09/2007, Economia, p. B15

Ações estão 30% mais caras porque o mercado não espera intervenções do governo até o fim do evento

O entusiasmo nacional com os jogos olímpicos de 2008 ajuda a sustentar as cotações na bolsa chinesa, segundo o economista David Li Daokui, doutor pela Universidade de Harvard e professor da Universidade Tsinghua, de Pequim.

Os preços dos papéis estão inflados em cerca de 30%, diz o professor, mas o dinheiro continua fluindo para o mercado. Sua explicação: até a Olimpíada, ninguém espera do governo uma intervenção capaz de afetar o mercado de capitais. Depois dos jogos, acrescenta, poderá ocorrer um ajuste. Um esfriamento econômico, avalia, poderá ser saudável.

A Olimpíada marcada para agosto de 2008 será mais uma oportunidade para a China exibir seu ressurgimento econômico, afirma o professor. O evento terá um efeito limitado sobre o crescimento: as estimativas têm apontado algo próximo de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Os efeitos setoriais poderão ser mais sensíveis. Mas o evento é tratado como questão de orgulho nacional e de grande significado político.

Os jogos serão disputados em sete cidades, incluída a capital. Todas deverão preparar-se para atender às demandas de uma grande massa de turistas. Uma das conseqüências deverá ser o desenvolvimento mais veloz do setor de serviços, avalia o empresário francês Bernard Bourigéaud, presidente do grupo Atos Origin, contratado para cuidar dos serviços de tecnologia de informação dos jogos, O grupo emprega 50 mil pessoas e opera em 40 países.

Bourigéaud foi um dos participantes, ontem, do Fórum Econômico Mundial,de uma sessão dedicada à aventura de preparar e sediar a Olimpíada, um evento gigantesco e complexo, num país onde se combinam enorme dinamismo econômico e um sistema político em transformação gradual.

Hábitos de consumo poderão mudar, calcula o executivo Pan Gang, presidente do grupo industrial Inner Mongolia Yili, produtor de laticínios. Sua indústria, diz o empresário, está investindo para atender às peculiaridades demandadas pelos estrangeiros, como o produto com lactose reduzida. Mas os efeitos, calcula, permanecerão quando os turistas tiverem ido embora. A Olimpíada de Tóquio, segundo Pan Gang, contribuiu para o aumento duradouro, no Japão, do consumo de queijos e outros derivados do leite.

A preparação do evento já contribuiu para reforçar a abertura econômica, observa o professor David Li Daokui. Dois dos principais contratados para a preparação dos jogos são poderosos grupos estrangeiros, ambos franceses: além do Atos Origin, o grupo Publicis, gigante do setor de comunicações, publicidade e marketing, com presença em 109 países.

O interesse dos clientes da Publicis pelos jogos é enorme, segundo Levy. Todos querem, de alguma forma, participar do evento e será preciso encontrar uma solução para cada um, porque nem todos poderão ser patrocinadores dos jogos.

A Olimpíada na China é uma experiência nova até para empresários habituados a grandes empreendimentos. As dimensões de todas as tarefas são excepcionais. A empresa Atos Origin deverá cuidar, entre outras coisas, das credenciais para as pessoas envolvidas no evento - cerca de 200 mil - e do recrutamento de voluntários - entre 60 mil e 70 mil em Pequim.

Há também peculiaridades políticas. Os jogos mobilizam todo a sociedade e têm enorme importância para o governo, muito sensível, segundo Levy, à imagem do País.

Na opinião do economista David Li Daokui, o governo estará blindado contra os efeitos políticos de manifestações contrárias à realização dos jogos na China. A população está mobilizada e tenderá, segundo ele, a atribuir intenções conspiratórias a quaisquer manifestações no exterior.

O governo seria mais vulnerável, acrescenta o professor, se a economia passasse por uma desaceleração e o otimismo diminuísse.

Mas poderá haver surpresas nos jogos, como já houve noutros países, lembraram Maurice Levy e Bernard Bourigéaud. Nunca se sabe quando um ganhador de uma medalha de ouro aproveitará a subida ao pódio para se manifestar politicamente. Nesse caso, o melhor será simplesmente aceitar o fato, pondera Levy, e o país ganhará com isso.