Título: Juro nos EUA pode cair mais
Autor: Tamer, Alberto
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/09/2007, Economia, p. B8
E o banco central americano surpreendeu com um corte de 0,5 ponto porcentual na taxa básica de juro. Certamente, Bernanke está mais informado sobre a saúde da economia do que o mercado, que esperava apenas 0,25 ponto. Para nós, tudo bem. A diferença entre o juro doméstico e o internacional passa de 6 pontos porcentuais para 6,5 pontos, o que vai atrair mais investimentos financeiros do exterior, via bolsa ou títulos do Tesouro.
Entrando mais dinheiro, a tendência é o dólar desvalorizar-se, reduzindo ainda mais os preços dos produtos importados e ajudando a conter a inflação. Tudo isso sem contar que, se a ação agressiva de Bernanke der certo, reduzirá o risco de desaceleração mais forte da economia americana, fato importante, porque ela representa 33% do PIB mundial e 18% do comércio internacional.
VAI RESOLVER?
Mas, aqui, uma dúvida que preocupa. Ao agir, o Fed tinha dois objetivos: acalmar o mercado financeiro e reanimar a economia. O primeiro parece ter sido alcançado. As bolsas mundiais registraram altas, algumas históricas, recuperando as perdas anteriores. Pode haver recuos, como ontem, provocados por realização de lucros, mas tudo indica que o pior passou.
Mas, e a segunda meta, a de reanimar a economia? Essa questão preocupava, na tarde de ontem, os analistas mais equilibrados. Será que uma redução do juro básico, mesmo de 0,5 ponto porcentual, é suficiente para fortalecer o consumo? Isso não despertaria a inflação?
John Makin, acadêmico do American Enterprise Institute, afirma que, 'mesmo com o corte de 0,5 ponto porcentual, a economia provavelmente vai contrair-se no último trimestre do ano, embora menos do que se o Fed não tivesse agido'. E acrescenta: se a economia se enfraquecer, as condições do crédito seguirão o mesmo rumo, por causa da queda dos preços dos imóveis. 'É preciso quebrar o círculo (vicioso) de crédito ruim, economia ruim.' O que o Fed acabou de fazer foi dar o primeiro passo para isso. Ou seja, conclui, deveremos ter mais cortes de juros ainda neste ano, pois a solução para o problema principal, reativação econômica, está em juros ainda menores para incentivar o consumo, mesmo ao risco de alguma inflação. Ian Serpedson, da High Frequency Economics, afirma ao marketwatch.com que 'a inflação é o inimigo de ontem'.
SERÁ? TALVEZ
Aqui, o desafio principal de Bernanke. Os americanos aumentarão o seu consumo com um crédito mais favorável? E isso não provocaria um retorno das pressões inflacionárias? Muito ao contrário do que vinha dizendo, o Fed admite agora que o crescimento econômico foi afetado, sim, pela crise imobiliária e que a instituição está pronta a agir novamente, se necessário.
Mas Bernanke sabe, também, que o efeito positivo dos juros sobre o ânimo do consumidor deve demorar alguns meses. É preciso dar mais ânimo e influenciar psicologicamente o consumidor, que precisa voltar a comprar mais. Felizmente, para ele, os resultados atuais são favoráveis.
1) A inflação deu sinais de recuo em agosto, com o índice em 1,9%, dentro do que o Fed chama de 'zona de conforto', que nada mais é que um regime de metas não declarado para a inflação. O Fed tem deixado claro que intervirá se a inflação passar muito de 2%.
2) Outro indicar positivo é que o crédito aos consumidores, em julho, aumentou 3,4%; eles levantaram empréstimos via cartão e outras modalidades de curto prazo da ordem de US$ 2,4 trilhões. Mas isso não é ruim? Não, necessariamente, pois não se trata de uma pesada dívida hipotecária, mas aquela feita nas compras a crédito, no dia-a-dia. Como o juro de rolagem é baixo, a dívida pode ser facilmente absorvida com pagamentos mensais, em especial se os juros voltarem a recuar.
Ou seja, a economia americana, que depende 70% do consumo interno, dá ainda sinais de resistência ao choque imobiliário. O Fed acertou agora, sentiu que um corte de 0,25 ponto porcentual seria insuficiente, pois já havia sido absorvido pelo mercado. No fundo, o Fed praticou uma terapia de eletrochoque no mercado, observa o Financial Times, e agora vai observar os indicadores até a próxima reunião, em 30 de outubro. Só então decidirá uma nova intervenção, que poderá vir sob a forma de mais um corte de 0,25.
Se isso acontecer, tudo bem para o Brasil. Afinal, aqui o juro interno, ainda alto, poderá recuar sem pressionar muito a inflação, pois vai contar com a ajuda de um dólar mais desvalorizado, que vai reduzir os preços dos produtos importados.
Agora, ninguém mais poderá reclamar da crise americana, 'que o Brasil não aceita', como afirmou o presidente. Afinal, eles estão dando muito bem conta do recado e ainda ajudam o Brasil a atrair investimentos e conter a inflação.
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