Título: Renda de informal cresce 10% no ano
Autor: Brandão Junior, Nilson
Fonte: O Estado de São Paulo, 21/09/2007, Economia, p. B7

Rendimento de trabalhador sem carteira assinada sobe sete vezes mais do que o salário de empregados formais

O rendimento médio do trabalhador sem carteira assinada no País está crescendo a uma taxa quase sete vezes superior ao avanço da renda dos empregados com carteira assinada. Na média, o aumento do rendimento real (descontada a inflação) dos trabalhadores informais foi de 10,4% de janeiro a julho deste ano, de R$ 669,48 para R$ 741,20. O avanço dos com carteira foi de 1,7% e a renda média passou de R$ 1.076,74 para R$ 1.095,05. Em paralelo, o crescimento da renda de todas as categorias vem desacelerando ao longo do ano.

Os dados fazem parte do Boletim de Conjuntura publicado esta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Segundo o boletim, a renda média do trabalho cresceu 4,2% entre janeiro e julho, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Esse crescimento vem, contudo, desacelerando, uma vez que, no primeiro trimestre, o avanço foi de 5% e, no segundo trimestre, um pouco mais fraco, de 3,9%.

¿Uma explicação para tal movimento de perda de fôlego está ligada, de um lado, à aceleração da inflação ao longo dos últimos meses e, de outro lado, ao dinamismo do mercado de trabalho, em que a taxa de ocupação é puxada pelo crescimento do emprego com registro¿, afirma o boletim.

No setor privado, o maior crescimento da renda é entre os trabalhadores informais. No ano passado, isso já havia ocorrido: os trabalhadores com carteira tiveram rendimentos 3,5% superiores no ano, ante os 6,4% dos sem carteira.

A economista do Ipea Maria Andréia Parente explica que o crescimento do consumo das famílias, verificado nos resultados semestrais do Produto Interno Bruto (PIB), estimula a demanda por prestação de serviços, por exemplo, segmento em que trabalha grande parte dos informais. Num ambiente de economia mais aquecida, eles conseguem recompor margens e ajustar mais seus preços.

Além disso, o menor crescimento da renda do setor formal reflete uma mudança de composição da população ocupada nesse segmento.

Tradicionalmente, em momentos de forte contratação de emprego formal, como vem ocorendo atualmente, os salários pagos nas novas vagas tendem a ser inferiores aos de trabalhadores de funções semelhantes que têm mais experiência.

Na prática, entram, também, no trabalho formal novos empregados, que eram informais e chegam com base salarial inferior. Em julho, enquanto o salário médio dos trabalhadores formais era de R$ 1.095,20, o rendimento médio dos informais estava em R$ 743,70.

APERTO

De qualquer forma, os trabalhadores informais reclamam que o aumento na renda não está ajudando no orçamento da casa. O vendedor de redes Damião Bernardo de Araújo, 36 anos, trabalha nas ruas há seis anos, e garante que as vendas têm caído. Nesta semana, ele vendeu apenas duas unidades - há dois anos, o número mensal passava de 60. ¿Estou ansioso para chegar a temporada de férias, pois vai melhorar.¿

O sorveteiro Dario Bezerra Santos, 51 anos, não está tão otimista. ¿Trabalho por conta há dez anos e percebo que as despesas têm crescido muito, e a renda não acompanha. Como já passei dos 40 anos, não acredito que consigo voltar ao mercado formal¿, disse.