Título: Brasileiro derruba tabus na hora de comprar carro
Autor: Silva, Cleide
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/09/2007, Economia, p. B18
Cresce procura por veículos com quatro portas e com câmbio automático, que antes eram rejeitados
As vendas de automóveis no Brasil crescem a uma velocidade média de 10% ao ano desde 1993. Nesse período, os consumidores derrubaram tabus por longo tempo mantidos no mercado nacional, como o de recusar carros com quatro portas, considerados menos seguros, e câmbio automático, que tirava a emoção de dirigir. Hoje, apenas 21% dos carros novos vendidos têm duas portas e o câmbio automático equipa quatro vezes mais veículos do que há cinco anos.
Ao mesmo tempo, há tabus que persistem. Modelos conversíveis nunca foram bem aceitos no País e sumiram das fábricas. Carro colorido é quase um nicho, pois a predominância nas ruas são os sóbrios como prata e preto, cores que cobrem 75% dos veículos.
'A overdose de cores neutras deve permanecer por mais algum tempo', prevê Alex Lair Amorin, supervisor do laboratório de cores e pigmentos da PPG Industrial, fabricante de tintas automotivas.
A oferta de carros com duas portas está praticamente limitada às versões mais baratas de cada marca. A opção é oferecida apenas nos modelos Celta (GM), Uno e Palio (Fiat), Ka (Ford), 206 (Peugeot), Gol e Fox (Volkswagen) e Clio (Renault). Nesse quesito, o Brasil começa a se equiparar ao resto do mundo, diz Valdir Souza, diretor da Delphi, uma das maiores fabricantes de autopeças do País.
Nos Estados Unidos, quase a totalidade dos automóveis têm quatro portas. Na vizinha Argentina, é maioria. Na Europa, escapam apenas os minicarros como o Smart, que transporta duas pessoas.
Considerando os automóveis hatchbacks (sem traseira alongada), que oferecem as duas opções, 79% das vendas realizadas este ano foram de versões com quatro portas, participação que há uma década era de 38% e, em 2003, de 58%. Modelos sedãs só são oferecidos com quatro portas.
No passado, havia restrição às quatro portas porque muitos clientes avaliavam como menos seguros para crianças transportadas no banco traseiro e mesmo pela facilidade de assaltantes invadirem o veículo. 'Com o desenvolvimento de itens como travamento elétrico, o receio começou a cair por terra', diz o gerente de vendas da Volkswagen, Fabrício Biondo. A diferença de preço entre um carro com duas portas para o quatro é de cerca de R$ 1,5 mil.
Câmbio automático era para maus motoristas e 'tirava a emoção de dirigir', relembra Souza. Nos últimos anos, com o stress dos congestionamentos, o motorista brasileiro percebeu que pisar na embreagem e trocar marcha o tempo todo é cansativo. O equipamento, por enquanto importado, é item de luxo, custa na faixa de R$ 5 mil, mas está em 9% dos carros vendidos no País, ante 2% em 2003.
'Quanto maior a penetração no mercado, mais acessível ficará o preço', avalia Isela Constantini, diretora da General Motors para a região da América Latina, África e Oriente Médio (Laam). Para quem sentir saudades de trocar a marcha, empresas como Audi, Volkswagen, Renault e Peugeot lançaram a transmissão seqüencial (Tiptronic), que possibilita ao motorista acionar o câmbio manual quando quiser.