Título: Dois padrões de vida distintos
Autor: Werneck, Felipe
Fonte: O Estado de São Paulo, 29/09/2007, Vida&, p. A34

O cotidiano de Iraci, no Rio, e de Conceição, em Salvador

São 9 horas na manhã ensolarada de Copacabana, na zona sul do Rio, e Iraci Soares, de 73 anos, segue apressada pelas ruas movimentadas deixando para trás dezenas de jovens pelo caminho. Três vezes por semana ela corre contra o tempo na saída da aula de hidroginástica para não chegar atrasada à sessão de alongamento que faz em outra academia.

É da atividade física que ela tira o vigor para as rápidas passadas e a agitada agenda cultural: shows e teatro todo fim de semana, viagens pelo Brasil e pelo exterior e muita conversa para trocar com as amigas, que só na turma de alongamento são 25 na mesma faixa etária. Iraci ficou viúva em 1975 e desde então recebe como pensão o salário integral do marido economista.

`QUANDO DÁ¿

A balconista de Salvador (BA) Conceição dos Santos Rego, de 37 anos, desempregada há três, é mãe solteira um menino de 14 anos, cursando o 5º ano do ensino fundamental, na rede estadual; outro de 10 anos e uma menina de 8, ambos no 2º ano, na rede municipal.

Ela se escora no Bolsa-Família e no vale-gás para seguir a vida. ¿Faço bicos como faxineira e lavadeira, mas meu principal ganho vem do governo, mesmo.¿

O benefício foi elevado, no mês passado, para R$ 112 - antes, era de R$ 75. O principal item de consumo de Conceição, segundo a própria, é o ¿quando dá¿.

¿No café da manhã, por exemplo, as crianças comem pão, com café e leite... Biscoito, só quando dá¿, ironiza. ¿No almoço é igual: tem sempre arroz e feijão, mas carne é quando dá. Com remédios e roupas é a mesma coisa, mas quase nunca dá.¿

Os filhos ficam doentes com ¿certa freqüência¿, segundo a mãe.