Título: Senado instala CPI das ONGs, mas blinda Ideli
Autor: Scinocca, Ana Paula
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/10/2007, Nacional, p. A8

Senadora petista é ligada à entidade que teria usado irregularmente R$ 5 mi; Planalto quer vetar o peemedebista Valter Pereira para relatoria

Brasília - Marcada por uma manobra do Planalto e do PT para blindar a líder do partido no Senado, Ideli Salvatti (SC), foi instalada ontem a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das ONGs, que vai investigar entidades e organizações não-governamentais suspeitas de desviar recursos públicos entre 1999 e 2006.

Ideli - ligada à ONG Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-Sul), suspeita, segundo a revista Veja, de ter usado irregularmente R$ 5 milhões para promover cursos de treinamento profissional - virou alvo potencial de uma investigação. A senadora nega as irregularidades. Para protegê-la, o Planalto e o PT acertaram nos bastidores o veto ao nome de Valter Pereira (PMDB-MS) à relatoria. Pereira comandou a rebelião dos senadores peemedebistas que acabou por barrar a criação da Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, na semana passada. Havia o temor de que o governo sofresse novo desgaste, desta vez por causa de Ideli.

A tentativa do governo é emplacar Inácio Arruda (PC do B-CE) no cargo. O comunista atuaria, assim, como uma espécie de ¿Almeida Lima (PMDB-SE)¿, referência ao principal defensor do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), no Conselho de Ética.

A definição do relator e do primeiro vice-presidente da CPI ficou para terça-feira, quando o senador Raimundo Colombo (DEM-SC) - escolhido ontem presidente - pretende estabelecer o cronograma de trabalho da comissão.

O veto deixou Pereira irritado. Ele admitiu ter sido pego de ¿surpresa¿ ao ser informado da ¿resistência¿ a seu nome, ontem, pelo líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO). A permanência de um peemedebista na relatoria da CPI também traz outro incômodo ao governo: o temor de que o PMDB possa utilizar o cargo para fazer pressão na votação da CPMF.

Pereira afirmou que não estava convencido do veto ao seu nome e pediu nova reunião com a bancada para discutir o assunto. ¿O jogo político é cheio de surpresas. Tive uma surpresa já que minha indicação estava acertada pela bancada.¿

Questionado se considerava o veto a seu nome uma vingança pelo fato de ter comandado a votação contra o governo na semana passada, o senador disse não estar arrependido da ¿rebelião¿. ¿Eu não voltaria atrás. Agi de acordo com a minha consciência e meu voto foi técnico¿, ressaltou.

Pereira ainda avisou que se a CPMF chegar ao Senado nos moldes em que se encontra hoje, novamente votará contra o Planalto. ¿A CPMF, do jeito que está, é difícil de ser digerida. Se houver mudança, que ela se torne palatável.¿

BRIGA LOCAL

Apontado por petistas de Santa Catarina como um dos responsáveis pela denúncia do envolvimento de Ideli com a ONG que desviou recursos, Raimundo Colombo disse que essa acusação ¿não o atinge¿. Ressaltou ¿não ter nada contra Ideli¿ e disse que a intenção é harmonizar. Mas avisou que pretende investigar para valer. ¿A CPI não pode querer proteger ninguém. Ela que alcance quem tem que ser alcançado.¿

Tão logo foi aberta, outra polêmica tomou conta da CPI. Autor do requerimento que solicitava a investigação, o senador Heráclito Fortes (DEM-PI) propôs alongamento do período de apuração até 2007. Aliado de Ideli, Sibá Machado (PT-AC) propôs que o assunto fosse discutido em outro momento e apreciado por meio de requerimento. Colombo já avisou ser favorável à ampliação das investigações.

Relator ¿dos sonhos¿ do PT, de Ideli e do Planalto, Inácio Arruda disse ser ¿abuso de informação¿ as insinuações de que ele seria relator ¿para aliviar¿ petistas. ¿Todos os membros da CPI têm legitimidade para ocupar a relatoria¿, afirmou, dizendo esperar que a investigação não seja pautada ¿por guerra política¿.